O peso do silêncio e a ausência de um olhar

Segunda-feira, 11 de Agosto de 1975

Hoje de manhã nenhum dos meus colegas apareceu à minha porta. O silêncio que se fez dentro de casa era quase sólido, uma massa densa que me empurrava para dentro de mim próprio. Cada segundo parecia alongar-se, como se o mundo tivesse decidido parar e deixar-me sozinho com os meus pensamentos errantes. Deitei-me na cama, tentando deixar que o cansaço me levasse, mas a mente insistia em vaguear, sempre regressando à mesma ausência.

À tarde, o Manel surgiu de repente, trazendo consigo um sopro de normalidade, mas ficou pouco tempo e partiu como quem não quer incomodar. O seu passo apressado desapareceu pelo corredor, e com ele a breve distração que me oferecera. Fiquei sozinho de novo, com o peso da espera e a sensação de que o tempo me escapava entre os dedos, inatingível, indiferente.

A Dila, como sempre, continuava fora do meu alcance. Procurei-a nos lugares de costume, tentei adivinhar a sua presença nos gestos das sombras e no sussurro do vento, mas nada. Cada falha em encontrá-la é uma pontada no peito, uma lembrança de que a vida se arrasta lenta quando se espera alguém. Senti, mais do que nunca, o desejo de a ver, de cruzar o seu olhar, de ouvir a sua voz e deixar que o tempo se desfizesse entre nós.

No fim da tarde, acompanhei o Benjamim à Academia. Vi-o ser graduado pela primeira vez. Orgulho e admiração misturavam-se em mim, mas junto deles crescia a inquietação, o contraste entre a conquista dele e a minha própria sensação de vazio.

O crepúsculo desceu sobre S. Pedro e trouxe consigo uma calma enganadora. A casa parecia maior, o silêncio mais pesado. Fechei os olhos por momentos, e deixei que o coração vagueasse por lugares onde a Dila pudesse estar, imaginando-a sorrindo, mesmo que apenas na minha mente.

Assim terminou o dia, uma mistura de pequenas glórias alheias e da eterna busca de uma presença que mantém o mundo vivo e faz o coração bater com intensidade, mesmo na solidão.


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