Carta interceptada, coração inquieto
Terça-feira, 30 de Setembro de 1975
Hoje o dia começou com uma ansiedade diferente, uma inquietação que não se parecia com a espera habitual. O Manel veio ter comigo cedo, e ao vê-lo, percebi imediatamente que alguma coisa de errado se passara. As suas palavras foram rápidas, quase sussurradas: a mãe da Dila tinha apanhado a carta.
Senti um arrepio percorrer-me a espinha. A carta, cada palavra sentida, cada apelo silencioso, fora interceptada antes de chegar às mãos da Dila. Uma onda de medo e culpa invadiu-me; o que teria ela sentido ao saber que eu escrevera aquilo? Teria chorado, ficado zangada, ou, pior ainda, seria castigada de alguma forma? Cada cenário desfilar-se-ia na minha mente, crescendo como uma tempestade que se recusa a acalmar.
Passei o dia inquieto, cada som à porta parecia anunciar más notícias, cada sombra no corredor parecia um presságio. Senti-me impotente, como se o meu gesto de amor tivesse sido transformado numa ameaça involuntária à felicidade dela. A preocupação tornou-se palpável, quase sufocante, e cada minuto sem notícias parecia dilatar-se num vazio doloroso.
Ao fim da tarde, sentei-me sozinho no meu quarto, com as mãos a tremer levemente. Reflecti sobre o que poderia fazer para proteger a Dila de qualquer mal, para corrigir o que agora parecia irreversível. As palavras escritas, antes cheias de esperança, transformaram-se numa fonte de dúvida, em correntes que me prendiam a pensamentos escuros.
E assim termino o dia com um coração pesado e uma mente cheia de perguntas sem respostas: estaria ela bem? Teria sofrido por minha causa? E agora, como continuar, como reverter este desastre sem interferir nos delicados fios que nos ligam? A noite desce silenciosa sobre o meu quarto, mas dentro de mim, o inquieto turbilhão continua, e só a aurora poderá trazer alguma clareza.
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