Palavras ao vento, esperança no peito

Domingo, 28 de Setembro de 1975

Hoje o meu dia começou com o peso de uma decisão. Peguei numa folha em branco, sentei-me à mesa e comecei a escrever para a Dila. Cada palavra parecia arrancada do meu próprio coração, e a dor do silêncio dela transformava-se em tinta sobre o papel. Não queria implorar por amor, nem insistir em algo que pudesse ser recusado, mas não podia aceitar o vazio que o seu “não” deixara no meu mundo.

A carta começou por ser simples, contida, mas rapidamente se tornou uma confissão. Expliquei-lhe que o meu desejo mais profundo não era que se apaixonasse por mim, mas que não desaparecesse da minha vida. Se o destino quisesse que fôssemos apenas amigos, aceitava, desde que pudesse continuar a sentir a sua presença, ouvir a sua voz, partilhar aqueles pequenos momentos que dão sentido aos dias.

As palavras vieram com força inesperada, quase descontroladas, revelando a angústia que me consumia. Cada frase era uma tentativa de tocar a alma dela, de fazê-la compreender o quanto a sua ausência me deixava vazio. Confessei-lhe medos, esperanças, o receio de a perder por completo, e a vontade de, mesmo só como amigos, continuar a partilhar a vida que ela coloria com a sua luz.

Depois de escrever, reli a carta vezes sem conta, corrigindo e sublinhando o que parecia mais verdadeiro. Passei algum tempo a contemplar a página, como se as palavras pudessem, por si só, viajar até ela, atravessar os muros da sua resistência e tocar-lhe o coração.

No final da tarde, entreguei a carta ao Manel, confiando-lhe a missão de a fazer chegar à Dila. Senti um misto de alívio e ansiedade, uma sensação de desamparo que só o coração adolescente consegue carregar com tanta intensidade.

Ao regressar para casa, sentei-me junto à janela, olhando o céu que se tingia de cores suaves, e deixei-me levar por um monólogo de esperança. Imaginei a Dila a ler a carta, a sorrir com compreensão, talvez emocionada, e senti a centelha de uma resposta que poderia restaurar as minhas esperanças. A noite caiu, mas a expectativa continuava acesa dentro de mim, como se cada estrela no céu fosse um suspiro da minha alma, à espera de um gesto dela que devolvesse sentido aos meus dias.

Terminei o dia com o coração apertado, mas com a esperança firme: talvez amanhã a sua resposta me faça sentir novamente que a distância não é o impossível, e que ainda há lugar para nós, de qualquer forma que ela escolha.


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