Silêncio que fala

Segunda-feira, 29 de Setembro de 1975

O dia começou como qualquer outro, mas cada minuto parecia arrastado pelo peso da carta entregue à Dila. Durante a manhã, a minha mente não descansava; a vida acontecia lá fora, mas tudo se misturava num ruído distante, enquanto eu revivia, em pensamento, momentos inesquecíveis.

Por momentos, encostei-me à janela, observando as sombras que o sol formava sobre o pátio de casa. Cada pessoa que passava na rua era irrelevante, o relógio tocava distante na torre da igreja, porém dentro de mim o tempo tinha parado. Perguntava-me se ela teria percebido a intensidade das palavras, se a leitura teria feito o seu coração bater de maneira diferente, se alguma dúvida ou hesitação a consumiria. O simples acto de imaginar a sua reacção bastava para me encher de ansiedade.

Ao fim do dia, quando finalmente regressei a casa da ida à Academia, sentei-me no meu quarto com o diário aberto à minha frente. A caneta parecia pequena diante de tanta emoção que queria colocar no papel. Reflecti sobre a coragem que tivera para escrever, e sobre o medo que ainda me acompanhava: o medo do silêncio dela, da ausência de qualquer resposta, da possibilidade de que tudo tivesse sido em vão.

Mas, entre o medo e a esperança, encontrei uma pequena chama que recusava apagar-se. Pensei que a espera, ainda que dolorosa, era um gesto de amor próprio, de paciência, e de confiança de que, por mais incerta que fosse a resposta, ter expressado o que sentia já era uma vitória. Senti-me ligado a ela de uma forma invisível, uma corrente de sentimentos que atravessava a distância entre nós, mantendo-me atento a cada instante em que poderia surgir uma notícia, uma palavra, um sinal dela.

Enquanto a noite caía e a luz do candeeiro iluminava o diário, escrevi estas linhas como quem fala consigo mesmo: mesmo que o silêncio se prolongue, a esperança permanecerá. Cada palavra que deixei para ela continua a vibrar, e, talvez amanhã, traga consigo um sopro de alegria ou um sorriso escondido que faça renascer, ainda mais forte, o que sinto por ela.


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