Coração em Espera
Sábado, 27 de Setembro de 1975
O dia começou com o peso da rotina, mas, por mais que tentasse afastar pensamentos, a Dila ocupava cada recanto da minha mente. A manhã passou entre cestos de uvas e o aroma doce do mosto que se formava, misturando-se ao cheiro da terra molhada. Cada gesto de ajudar o Manel nas vindimas parecia mecânico, mas, no fundo, os meus olhos buscavam constantemente algo que não estava ali: o rasto dela, o riso que tantas vezes me iluminara, mesmo à distância.
À tarde, o trabalho continuou, e eu deixava-me perder no esforço físico para afastar as ideias que teimavam em surgir. Pisei uvas até que os dedos se tornaram roxos e a camisa encharcada de suor e sumo, mas mesmo o cansaço não conseguiu roubar-me a memória do seu olhar.
À noite, a viagem para S. João da Madeira trouxe-me um alívio momentâneo, mas também uma inquietação. O filme do estágio do mestre Tran Huu Ha, os “Katas”, a defesa pessoal e a quebra das tábuas eram exercícios de disciplina, mas cada golpe lembrava-me que no meu coração tudo era caótico. No café, as conversas do meu pai passavam quase despercebidas; eu vivia em paralelo, num mundo onde só a Dila existia, mesmo sem estar presente.
Quando regressei a casa, o silêncio do quarto trouxe-me à superfície tudo o que tentei adiar: a jura de não a ver, os bilhetes não enviados, a esperança que não se apagava. Um desgosto suave misturava-se à ansiedade — saber que o dia seguinte poderia trazer notícias dela ou apenas o vazio da espera. Fechei os olhos, imaginando o som da sua voz, a curva do seu sorriso, e percebi que a normalidade não voltara; talvez nunca voltasse, enquanto o coração insistisse em bater ao ritmo dela.
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