O peso da decisão

Sexta-feira, 26 de Setembro de 1975

Acordei com o céu cinzento, como se até a chuva pressentisse o que se passava dentro de mim. Entre ontem e hoje, não consegui afastar da mente o que a Dila me fizera; senti-me traído pelos meus próprios sentimentos, incapaz de contê-los. A raiva misturava-se com a tristeza, e a decisão surgiu clara, quase inevitável: não a veria mais. Escrevi-lhe um bilhete, curto, directo, definitivo.

O Manel veio até minha casa, e ao partilhar-lhe a minha resolução, notei no olhar dele uma desaprovação silenciosa. Não esperava que entendesse, mas magoou-me ver a discordância no seu gesto, como se o mundo inteiro se opusesse ao meu desvario.

A chuva caiu incessante, um manto frio que não conseguia lavar a tempestade dentro de mim. Mesmo assim, fui com o Manel às vindimas em casa dele; a tarde alongou-se até à noite, as mãos ocupadas, o corpo cansado, mas a mente sempre presa à Dila. Cada cacho de uva parecia pesar tanto quanto o meu coração.

Ao regressar, a casa, o jantar e a televisão foram apenas vultos de normalidade. Sentado, silencioso, percebi que já não podia mais segurar os meus sentimentos. Uma ferida se abriu, e nada do que me rodeava conseguia preenchê-la. A vida continuava, mas para mim, tudo parecia suspenso num instante doloroso, irreversível.

E ao deitar-me, a reflexão final assomou: talvez o amor, quando mais puro e intenso, seja também a mais cruel das prisões, deixando-nos livres apenas para sofrer.


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