Ecos de um sonho
Sábado, 26 de Julho de 1975
Acordei ainda envolto no eco quente daquele sonho, como se a noite se tivesse recusado a fechar as cortinas e deixasse, de propósito, uma nesga aberta para eu continuar a sentir a Dila perto de mim. Passei a manhã meio perdido entre pensamentos e lembranças, movendo-me pela casa com a leveza de quem regressa de um lugar longe demais para ser esquecido.
A realidade parecia desfocada, como se o mundo me pedisse paciência para voltar a ganhar contornos. Cada gesto do dia carregava a memória do toque dela; cada sombra que o sol projectava lembrava-me as sombras do sonho; cada silêncio parecia ainda ecoar o riso tímido da Dila. Era como viver num intervalo entre dois mundos: o real, lento e previsível, e o outro, o nosso — o impossível, mas tão vivo que ainda estremecia dentro de mim.
Fiz pequenos afazeres sem grande convicção, apenas para não ficar parado. Os pensamentos puxavam-me de volta para a noite anterior, e eu deixava-me ir, sem resistir. Sentia um misto de paz e saudade, como quem encontrou algo precioso e teme que o dia o faça desaparecer.
A tarde caiu com uma serenidade luminosa, e percebi que o sonho não tinha sido apenas um devaneio — tinha sido uma revelação. De que forma? Não sei. Mas deixou-me mais atento ao sentir, mais vulnerável, mais disposto a acreditar que há coisas que só a alma compreende antes de acontecerem.
A noite chegou com a mesma calma, e deitei-me sem pressa, quase com a esperança infantil de reencontrar aquele jardim escondido, aquela ponte silenciosa, aquele instante de pura entrega onde o mundo se dissolvia até restar apenas ela e eu.
E adormeci assim: com o coração aberto e o pensamento aceso, como quem espera que os sonhos continuem o que a vida ainda não permitiu.
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