Domingo sem Rumo

Domingo, 27 de Julho de 1975

O dia nasceu morno e sem surpresa, desses em que até o silêncio parece cansado. Acordei lento, sem grande vontade de ocupar espaço no mundo, e deixei que a manhã me levasse num ritmo arrastado. A apatia instalou-se logo cedo, como uma sombra que se cola à pele e não pede licença para ficar.

Vagueei pela casa sem destino, tocando nos objectos como quem confirma que ainda existe. Nada parecia ter verdadeira importância. O tempo escorria sem pressa, como água parada num charco que reflecte o céu mas não o sente. E, no entanto, mesmo neste torpor cinzento, havia um ponto de luz — ténue, mas constante — que me puxava por dentro: a Dila.

Ela estava lá, no âmago de tudo, mesmo quando o dia não queria saber de emoções. Era como uma chama que não se apaga, mesmo abafada pela monotonia. A lembrança do sonho ainda fazia ecos suaves na memória, mas hoje não vinha em rajadas; vinha em murmúrios. Aparecia num pensamento súbito, num suspiro involuntário, num vazio que de repente se tornava mais fundo só por saber que ela existia algures, longe de mim.

A tarde passou igual à manhã: sem rumo, sem cor, com a mente a dispersar-se como poeira ao vento. Tentava concentrar-me em qualquer coisa, mas tudo fugia. E sempre, por trás de cada desvio, estava ela — a presença invisível que não precisava de gestos para se afirmar. Não a vi, não ouvi o nome dela, não fiz nada por aproximar o mundo ao dela… mas bastava existir para que o dia, mesmo morto, tivesse uma espécie de pulsaçâo.

Quando o sol começou a cair, senti um certo alívio. Os dias mornos são mais fáceis de suportar quando acabam depressa. Deitei-me cedo, com aquele peso suave que o cansaço da apatia traz, e fechei os olhos com a secreta esperança de que, no sono, a Dila pudesse regressar — não como saudade, mas como sonho, como gesto, como presença.

Assim terminou este domingo: vazio por fora, mas com ela sempre acesa por dentro, como um farol que insiste em brilhar mesmo quando o mar é só calmaria.


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