Onde o Sonho Tocou a Realidade

Segunda-feira, 28 de Julho de 1975

Hoje o dia começou tão igual aos outros que nem me dei ao trabalho de esperar por surpresas. Saí de casa sem rumo definido, apenas para respirar qualquer coisa diferente do ar parado que a apatia me deixara no corpo nos últimos dias. Caminhei devagar, com a mente ainda a vaguear nos restos do sonho — aquele sonho que parecia querer sobreviver a todas as manhãs.

E então aconteceu.
Virei a esquina e lá estava ela. A Dila. Parada ao sol, como se o mundo tivesse decidido iluminá-la só para mim. Fiquei sem ar por um segundo, talvez dois. Ela sorriu — aquele sorriso que não precisa de ser aberto para ser inteiro — e, nesse instante, percebi que o meu dia tinha acabado de mudar de rumo.

Aproximamo-nos devagar, como se um receio antigo nos obrigasse a medir a distância. Ela perguntou-me como tinha passado o fim de semana, e eu — tolo ou corajoso, nem sei — não resisti. Contei-lhe do sonho. Todo. Não apenas os contornos inocentes, mas também os detalhes mais íntimos, aqueles que normalmente guardamos no peito para não parecermos loucos.

A Dila ouviu-me em silêncio, mas os olhos… os olhos disseram tudo o que a boca dela não se atrevia. Eram olhos que tremiam, não de medo, mas de emoção. E quanto mais eu falava, mais ela corava, desviando por instantes o olhar, como quem tenta esconder um sorriso ou um sobressalto.

“Sonhamos lugares que não existem…” murmurei, quase envergonhado.
Ela respirou fundo e respondeu com a voz baixa, como se receasse que o mundo ouvisse:
“Parece… parece tão real o que estás a dizer.”

Houve um silêncio apertado, desses que fazem o coração bater nas mãos. Ela flectiu os dedos, nervosa, e perguntou:
“E… nesses lugares… eu era como?”

Tive de engolir o ar antes de responder.
“Eras tu… mas mais próxima. Mais minha. Como se o mundo fosse feito para nos deixar estar juntos sem medo.”

A Dila baixou os olhos, e pela primeira vez notei um tremor nos lábios dela — um quase-sorriso, um quase-confesso.
“E tu… como eras no sonho?”

Sorri, meio envergonhado:
“Corajoso. Ou pelo menos tentava ser. No sonho não tinha medo de me aproximar.”

Ela ergueu o olhar, directamente para mim, e nesse instante percebi que a realidade tinha ficado perigosamente parecida com o sonho.
“Talvez… talvez nem sempre seja preciso um sonho para isso.”

A frase caiu entre nós como uma faísca. O silêncio que se seguiu foi denso, cheio de coisas que nenhum de nós ousou dizer em voz alta. Ouço ainda, dentro de mim, o eco dessa frase — tão simples e tão profunda.

Falamos longo tempo, mais do que seria normal. As palavras fluíam com uma naturalidade quase perigosa, como se tivéssemos passado a vida inteira à espera daquele instante para finalmente conversarmos sem reservas. Mas por baixo delas — por baixo de cada frase, de cada pausa, de cada respiração — havia algo escondido, quente, quase urgente, como um segredo que insistia em querer ser revelado.

A certa altura, ela contou-me que também tinha passado os últimos dias estranha, distraída, com a cabeça noutro lugar. Disse-o com cuidado, como quem não quer confessar demasiado.
“Senti-me… não sei… como se faltasse qualquer coisa,” murmurou, a voz quase engolida pelo ar.

O meu coração bateu mais rápido.
“Talvez fosse o mesmo que me faltou a mim,” arrisquei, com uma ousadia que nem percebi de onde vinha.

Ela desviou o olhar, mas não por vergonha — por intensidade. Ficou a brincar com a ponta da blusa, gesto pequeno, mas cheio de nervosismo.
“Quando me contaste o sonho…” começou, e parou. Respirou. Continuou num fio de voz:
“… foi como se tivesse entrado nele.”

O silêncio que se seguiu não era vazio. Era cheio. Denso. Tão cheio que quase nos obrigou a confessar tudo sem termos de dizer nada.

A Dila aproximou-se meio passo. Eu notei. Ela sabia que eu notei.
“E aquelas partes mais… íntimas?” perguntou, com uma inocência que não parecia inocência nenhuma.
“O que sentiste ao contá-las?”

Engoli em seco.
“Vergonha… e vontade de voltar a senti-las,” respondi, sincero demais para ser prudente.

Ela corou, mas não recuou.
“Eu…” começou, e suspirou.
Não sei o que pensar disso. Só sei que… não me deixou indiferente.”

A frase caiu entre nós como uma pedra no lago: abriu ondas, círculos, vibrações invisíveis que se afastaram até parecerem tocar tudo em redor.

Houve um momento em que os nossos olhares se cruzaram com uma intensidade tão grande que senti que, se o mundo nos deixasse ali por mais cinco segundos, poderíamos ter apagado qualquer fronteira entre sonho e realidade. A proximidade era palpável, quase perigosa, quase doce demais.

O vento mexeu no cabelo dela, e sem pensar estendi a mão para afastar uma madeixa que lhe caía no rosto. Ela não recuou. Fechou os olhos por um instante, como se aquele toque — tão pequeno, tão insignificante — dissesse tudo o que as palavras ainda tinham medo de dizer.

“António…” murmurou, com a voz trémula.
“Se calhar não é só no sonho que…”
Mas não terminou a frase. Talvez por medo, talvez por pudor, talvez por desejo.

E nesse instante percebi: havia algo vivo ali. Algo que respirava connosco. Algo que não vinha apenas do sonho — vinha dela. Vinha de nós.

Foi assim que a conversa continuou, sempre nesse fio finíssimo entre o dito e o quase-dito, entre o real e o que estava a nascer devagar, como uma flor que se abre com medo do sol mas com necessidade dele.

Quando nos despedimos, ela demorou um segundo além do necessário a largar a minha mão. Um segundo apenas — mas senti-o como quem sente a eternidade num gesto pequeno.

Voltei para casa a levitar.
Hoje, o sonho ganhou nome, voz, presença.
Hoje, a fronteira entre fantasia e realidade tornou-se demasiado fina para ignorar.


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