O Dia Seguinte

Terça-feira, 29 de Julho de 1975

Acordei com aquela sensação estranha de quem ainda carrega um brilho por dentro, mesmo que o dia à volta seja comum. O encontro com a Dila ontem deixou-me marcado, como se tivesse gravado qualquer coisa na pele — invisível aos olhos dos outros, mas impossível de ignorar para mim. Era como andar com uma chama escondida no peito, pequena, mas viva, teimosa, sempre acesa.

O Manuel apareceu de manhã, alegre como sempre, e passou parte da tarde comigo. Falamos de coisas banais, rimos de coisas simples, mas por mais que eu tentasse concentrar-me, a minha mente voltava sempre ao mesmo lugar: aos olhos dela, às pausas carregadas de silêncio, ao calor que ficou suspenso no ar entre nós. O Manuel falava, mas às vezes eu perdia o fio — e ele nem desconfiava que, por trás do meu olhar distante, havia ainda o eco vivo de cada palavra dita pela Dila no dia anterior.

Ao fim da tarde fomos à biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian requisitar livros. Caminhamos entre estantes e cheiros a papel antigo, mas mesmo ali, naquele silêncio de páginas e poeira dourada pelo sol, era a voz dela que continuava a ocupar espaço dentro de mim. Peguei num livro sem realmente o ver, como se os meus dedos se movessem sozinhos, enquanto a memória de ontem me acompanhava como uma sombra luminosa.

Regressei a casa, jantei, e fui com o meu pai ao café. Ele ficou a conversar com conhecidos, mas demorava tanto que acabei por vir para casa sozinho. A noite estava fresca, com um vento que parecia querer varrer os pensamentos, mas comigo não resultou — a Dila continuava ali, firme, como um nome gravado numa árvore antiga.

Hoje não a vi. E, ainda assim, senti-a mais presente do que em muitos dias em que a vi ao longe. Era como se o encontro de ontem tivesse criado uma linha invisível entre nós, um fio que, mesmo esticado pelo tempo ou pela distância, se recusa a quebrar.

Fui para o meu quarto e sentei-me à janela um pouco, a deixar que a noite me devolvesse alguma paz. E ali, com o céu a escurecer devagar, percebi que o dia estava a terminar com um sentimento novo — uma esperança tranquila, sólida, quase serena. Uma esperança que me diz que o futuro pode muito bem trazer mais encontros inesperados, mais diálogos murmurados, mais momentos em que o sonho e a realidade se confundem sem pedir licença.

Fecho o dia assim: com a certeza silenciosa de que algo começou ontem. Não sei o quê. Não sei até onde vai. Mas sinto — e isso basta por agora — que há um futuro a germinar no sítio exacto onde o olhar dela encontrou o meu.


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