Entre Palavras e Silêncios

Quarta-feira, 30 de Julho de 1975

A manhã começou silenciosa, quase reverente. Sentei-me à secretária e encarei o papel em branco como se fosse um portal: a carta que iria escrever à Dila seria mais do que palavras, seria o que o coração ousava revelar.

Escrevi sobre o fascínio que sinto por ela, sobre o jeito como cada sorriso seu ilumina mesmo os dias mais cinzentos. Coloquei na carta memórias dos nossos encontros, palavras sussurradas que se transformaram em promessas silenciosas, e as minhas inquietações — o medo de magoá-la, o receio de que ela não percebesse a intensidade do que sinto. Cada linha era um fragmento de mim: uma mistura de ternura, desejo e esperança de que a ligação que começamos pudesse crescer sem limites.

Entre as palavras, insinuei pequenos momentos que partilhamos, detalhes quase imperceptíveis que só nós entenderíamos: o toque casual de mãos, o riso que atravessou o silêncio, o eco de uma promessa não dita no dia anterior. E, sem revelar tudo, deixei transparecer a minha vontade de que o que existe entre nós se estendesse infinitamente, como se o tempo não tivesse poder sobre o que sentimos.

Às onze e meia, cheguei ao local do encontro. A irmã da Dila surgiu primeiro, e por um instante senti uma sombra de desalento, mas logo a confirmação de que ela vinha trouxe coragem. Esperei em silêncio até que ela finalmente apareceu, cada passo seu um compasso do meu coração.

Quando entreguei a carta, os olhos dela encontraram os meus e, como se fosse uma continuação do sonho que eu tivera dois dias antes, começou a falar:

António… lembro-me do que me contaste no teu sonho, aquele em que sentias que tudo seria possível se estivéssemos juntos…

Sim — disse, tentando manter a voz firme, mas sentindo o coração saltar — Desde então não consigo pensar em outra coisa… cada instante contigo parece tornar tudo possível.

E a carta…? — perguntou, os olhos a brilhar com curiosidade e ternura.

É uma promessa — respondi — Prometo que quero continuar a descobrir-te, estar contigo, sem pressa, sem que nada nos separe. Cada momento contigo importa mais do que tudo.

Ela aproximou-se, quase em silêncio:

Eu também sinto o mesmo… mesmo os nossos silêncios dizem muito. Cada instante é precioso.

O tempo suspendeu-se. Despedi-me com um gesto contido, mas carregado de significado. Caminhei de regresso a casa com o coração acelerado e leve de esperança. A carta, agora nas mãos dela, era mais do que papel e tinta: era uma ponte invisível que nos unia. Ao fim do dia, quando o crepúsculo tingiu o céu de laranja e púrpura, só um desejo ocupava o meu coração: que aquilo que iniciamos se propagasse infinitamente, atravessando o tempo e o espaço, sempre voltando para nós.