Entre a Névoa e o Silêncio

Quinta-feira, 6 de Novembro de 1975

O céu amanheceu cinzento, com nuvens baixas a arrastar-se preguiçosamente sobre a cidade. A rua tinha o cheiro de folhas molhadas e de chão recém-lavado; uma fita de cabelo, esquecida no jardim, chamava a atenção de António por um instante que não soube medir. Ficou a observá-la, sem razão, como se a sua simples presença fizesse sentido.

O Manel chegara mais tarde, rindo de uma história que eu apenas meio ouvia. Benjamim apareceu pouco depois, com um saco de pão que trouxera da padaria do avô, partilhando migalhas de conversa e pequenas piadas sem importância. Eu sorria, mas um pouco deslocado, tentando sentir-me presente na normalidade do dia.

Durante a tarde, um vento súbito trouxe o cheiro de chuva que ainda não caíra. Um som distante, talvez o ranger de uma porta antiga ou passos sobre folhas secas, fez-me franzir o sobrolho, sentindo um micro desfasamento no humor que não compreendia. Conversei, ri, troquei palavras com os meus amigos, mas algo no ar parecia hesitar, como se o tempo próprio da cidade tivesse um eco invisível que o seguia.

No regresso a casa, o frio apertou ao fim da tarde, e a luz morna da rua mal iluminava os passeios. Fiquei alguns minutos parado, a ver a neblina subir entre os prédios, observando um reflexo que se quebrava na água acumulada no chão. Havia silêncio onde antes havia ruído, e no meu peito a chama persistia, silenciosa, invisível, à espera que eu adivinhasse.

Chegado a casa, um chá quente e a companhia de um livro trouxeram conforto, mas não apagaram a sensação de algo que permanecia presente sem se mostrar, como uma sombra que se dissolve num pano húmido sobre uma tela. Escrevi algumas linhas no diário, sem referir ninguém, apenas para não esquecer o eco que o dia transportara.


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