A respiração das horas

Quarta-feira, 5 de Novembro de 1975

Acordei com uma luz pálida a entrar pela janela, daquelas que não aquecem nada, apenas lembram que o dia começou quer eu queira quer não. O quarto parecia maior do que o habitual, talvez porque a manhã vinha tão silenciosa que até o ar tinha folga.

Saí para a rua com o passo de quem não tem pressa de chegar a lado algum. O frio estava mais fino, insinuava-se pelas mangas e pelas costuras do casaco. Os carros passavam devagar, como se tivessem conspirado com o tempo para manter o ritmo geral em suspensão.

No liceu, o ambiente era o de sempre: vozes que se atropelavam nos corredores, conversas que pareciam todas iguais a si mesmas, colegas a viverem dramas que se resolvem tão depressa como aparecem. E eu ali, por dentro, como um rádio que se ouve em volume baixo — presente, mas sempre meio ao lado.

Durante uma aula mais monótona, deixei o olhar perder-se pela janela. Havia um pedaço de céu onde a nuvem parecia rasgada por uma linha de luz. E foi estranho: aquela nesga pequena fez-me pensar que às vezes basta um detalhe para o coração dar um soluço que ninguém vê. Não era memória, não era saudade. Era apenas… um toque. Um impulso sem nome.

À tarde, quando deixei a escola, o mundo pareceu tombar para um estado mais lento. A luz do fim do dia tingia as fachadas de um dourado desmaiado, e o ar estava tão parado que até os sons pareciam hesitar antes de se espalharem.

O caminho para casa fez-se quase em silêncio. Passava por sítios tão conhecidos que já não reparava neles, mas naquele dia reparei. A esquina com o muro baixo. A loja com o letreiro antigo. A árvore onde a copa se inclinava sempre para o mesmo lado. Cada coisa parecia pertencer a uma versão mais antiga de mim — e eu, no meio disso, a sentir-me ligeiramente deslocado, como se alguém tivesse mudado o cenário sem me avisar.

Quando cheguei, o cheiro do jantar começava a espalhar-se pela casa. A noite prometia ser igual às anteriores: tranquila, previsível, com o conforto discreto das rotinas.

Adormeci cedo. Antes de fechar os olhos, tive a impressão de que o dia me tinha soprado qualquer coisa ao ouvido. Não consegui perceber o quê. Mas ficou cá dentro, quieto, à espera.


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