O rumor que não se cala

Terça-feira, 4 de Novembro de 1975

A manhã trouxe um frio seco, quase cortante, como se o vento tivesse passado a noite inteira a afiar-se contra as paredes das casa da minha rua. Saí de casa encolhido no casaco, com a sensação de que cada passo ecoava mais do que devia — talvez porque a rua estava quase vazia, talvez porque eu próprio me sentia mais vazio do que queria admitir.

No caminho para as aulas, tudo parecia meio suspenso. As árvores, despidas de paciência, abanavam-se num gesto de resignação. O trólei passou lento, arrastando consigo um chiar metálico que me fez estremecer — não pelo som, mas pelo que trouxe à memória. Há ruídos que, sem avisar, nos atiram para dentro de nós próprios.

As aulas correram como correm os dias que não querem ficar para a história: alinhadas, previsíveis, com professores que falavam mecanicamente e colegas que riam por nada. Eu participava nos risos, claro, mas era como se estivesse sempre um passo atrás, a meio caminho entre o que vivia e o que tentava esquecer.

Ao sair do liceu, já a meio da tarde, o céu começara a carregar de novo. Senti a mudança no ar antes de ver as nuvens. Aquele cheiro particular — de terra cansada prestes a receber mais chuva — bateu-me de frente. E sim, lá veio outra vez aquela sensação discreta, quase ridícula, de que o mundo às vezes nos fala por metáforas. Não fossem elas, e talvez o dia fosse apenas o dia.

Segui pelo passeio devagar, a observar os vidros das janelas onde o reflexo me devolvia um rapaz que parecia mais pensativo do que devia para a idade. Talvez fosse só o cansaço. Talvez não. O certo é que, por instantes, senti qualquer coisa a mover-se ao longe, uma espécie de murmúrio interno que não sabia interpretar. Como um rumor antigo que insiste em repetir-se, mesmo quando já não faz sentido.

Cheguei a casa antes da chuva desabar. Poupei-me a esse embate. Mas a verdade é que, lá por dentro, a trovoada já tinha começado há muito tempo — suave, discreta, mas sempre presente.

E assim fechou o dia: sem sobressaltos, sem grandes acontecimentos… apenas aquele sussurro persistente que insiste em acompanhar-me, mesmo quando eu finjo não o ouvir.


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