O aceno que sobra no ar

Segunda-feira, 3 de Novembro de 1975

A manhã amanheceu chuvosa, e isso decidiu por mim: fiquei em casa, encostado ao conforto seco das paredes, enquanto lá fora a chuva riscava o dia como quem tenta reescrever o céu. Era um daqueles ritmos compassados que quase embalam — perfeito para não pensar demasiado.

De tarde fui para o liceu com o Benjamim; nada de novo, apenas o passo habitual, o caminho de sempre. Pelo meio, a irmã da Dila passou e acenou-me. Respondi sem esforço, sem intenção. Um gesto leve, tão rápido que quase não existia — e, no entanto, ficou ali a pairar dentro de mim como uma brisa que insiste em voltar atrás.

As aulas seguiram sem história. Professores, colegas, cadernos — tudo num alinhamento tão previsível que quase dava vontade de rir. No fim do dia, quando saímos, a chuva apertara de novo, e foi nesse regresso que qualquer coisa se soltou.

Caminhei devagar, com o casaco a absorver o frio e o cheiro da água e detritos a subir do chão. Havia uma estranha intimidade naquele caminho molhado. A chuva caía-me no rosto em pequenos choques, como se cada pingo tivesse uma lembrança dentro — daquelas que não se formam em palavras, apenas em sensações. Não eram memórias claras, nem definidas; eram antes ecos, reflexos distantes de um tempo recente que preferia não revisitar. Mas a chuva tem dessas manhas: devolve-nos imagens desfocadas, como fotografias mal reveladas que, mesmo sem nitidez, sabemos reconhecer.

À medida que avançava pela rua, o som das gotas nos telhados e nos muros parecia marcar um compasso interno que eu não queria admitir que estava a ouvir. O caminho era curto, mas aquele dia fez dele um corredor mais comprido, como se me estivesse a empurrar por dentro, a lembrar-me de que há coisas que não desaparecem apenas porque deixamos de lhes dar nome.

Quando cheguei a casa, trazia a roupa húmida e o pensamento ainda mais. A noite passou sem pressas, e adormeci com a sensação de que a chuva, essa velha intrometida, tinha puxado por fios que eu tentara deixar soltos.


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