Os dias sem argumento

Domingo, 2 de Novembro de 1975

O domingo começou como começam os domingos de quem não espera nada: com o corpo pesado e a mente a tentar convencer-se de que há um propósito em levantar-se. O Manel apareceu ainda antes do sol decidir se valia a pena brilhar. Trazia aquele ar meio desordenado de quem fala muito para não dizer nada — e eu agradeci-lhe isso sem precisar de o confessar.

Fomos até ao Largo da Farmácia, onde nada acontecia, como sempre. O Benjamim juntou-se a nós, arrastando os pés num ritmo que mais parecia uma banda sonora improvisada. Falávamos de tudo e de nada: das últimas músicas que tínhamos ouvido, das aulas que não nos apeteciam, dos professores que já sabíamos de cor. A vida parecia um disco riscado, mas curiosamente confortável.

Havia, porém, momentos em que a conversa parava — não porque faltassem temas, mas porque qualquer coisa, na quietude do ar, obrigava o pensamento a recuar. Era breve, quase imperceptível, como a sombra de um pássaro que passa depressa demais para ser vista, mas o suficiente para se sentir que passou. Nessas pausas, eu ficava a olhar para o chão, desenhando riscos invisíveis com a ponta do sapato, só para fingir que não tinha reparado.

Mais tarde, decidimos dar um passeio até ao monte. O frio estava a entrar na estação com aquela autoridade muda que o outono tem. O vento batia-nos no rosto como quem nos acorda de um devaneio. O Manel falava de uma rapariga qualquer da escola; o Benjamim fazia troça; eu ria-me, mas sem grande convicção — apenas o suficiente para que ninguém reparasse.

Não havia grandes eventos, nem reviravoltas, nem emoções incendiadas. Apenas um dia a passar, como se passasse por nós sem tocar verdadeiramente em nada. Mas, por vezes, quando o sol se escondia por detrás das nuvens, parecia que a tarde se desfocava um pouco, como um quadro antigo cujo fundo guarda uma figura que não queremos — ou não podemos — encarar.

Voltamos para casa cedo, cada um arrastado pela própria rotina. E eu, ao fechar a porta do quarto, senti aquele vazio suave que não dói, mas pesa. O tipo de vazio que não se explica — apenas se carrega.

E assim terminou o dia. Um daqueles dias que não pedem atenção… mas ficam.


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