Um silêncio que respira
Sábado, 1 de Novembro de 1975
O dia nasceu baço, como se o próprio céu tivesse passado a noite acordado a pensar em coisas que não quer dizer a ninguém. Não havia planos, nem entusiasmo, apenas aquela vontade calma de deixar as horas correrem, sem lhes pedir explicações.
O Manel apareceu cedo — trazia uma energia qualquer, nervosa e boa, como quem tenta disfarçar que a vida o anda a mastigar por dentro, mas não o vence. Falamos de trivialidades, de música, de sonhos que ninguém leva muito a sério. Eu ria-me, ele também, e o Benjamim juntou-se a nós mais tarde. Desacatos de gente sem más intenções: pontapés numa pedra, um comentário parvo, uma piada que nem tinha graça, mas que naquele momento parecia suficiente.
Circulamos pelas ruas sem pressa, empurrados mais pela rotina do que pela vontade. Havia uma estranha familiaridade em tudo, como se cada esquina já soubesse como nos íamos sentir antes de lá chegarmos. E eu, sem querer admitir, deixava-me embalar por essa monotonia confortável. Era bom não pensar demasiado. Era bom existir assim, sem perguntas.
Às vezes, quando o vento mudava de direcção, parecia trazer qualquer coisa que eu não sabia nomear. Uma espécie de silêncio dentro do próprio silêncio. Como se houvesse uma sombra a caminhar connosco — discreta, quieta, mas impossível de ignorar. Não era tristeza, nem era saudade. Era apenas… presença. Daquelas que não pedem permissão.
O dia acabou como começou: sem arquitectura, sem desfecho. Só uma sequência de pequenos nadas alinhados com a tranquilidade de quem não quer remexer no que está quieto. Fui para casa com a sensação de que algo se moveu ao longe, mas tão longe que talvez tenha sido apenas o meu pensamento a pregar partidas.
E adormeci assim, meio desperto, meio entregue, a sentir que às vezes o que não se diz pesa mais do que tudo o que se diz.
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