O mês que encerra em silêncio

Sexta-feira, 31 de Outubro de 1975

O último dia de Outubro apareceu com a mesma paleta dos anteriores: cinzento espesso, chuva miudinha, um frio que se insinua pelas mangas do casaco. Acordei sem entusiasmo, mas com aquela serenidade estranha que acompanha os dias repetidos. É como se o corpo já soubesse o que o espera e, por isso, já nem resmungasse.

A viagem de trólei foi igual a tantas outras — rostos ensonados, vidros embaciados, um mundo lá fora desbotado pelo tempo. Eu ia calado, sem grandes pensamentos, apenas deixando o dia avançar. A Dila não apareceu na mente com a força dos últimos dias; passou apenas como um sopro breve, um rasto luminoso que atravessa o pensamento, mas não se instala. Talvez porque o coração esteja a aprender a repousar, talvez porque certas memórias sabem quando devem recolher-se.

No liceu, a tarde correu sem surpresas. Os colegas arrastavam-se pelos corredores, os professores davam as aulas com aquela energia de véspera de fim-de-semana, e o ambiente tinha qualquer coisa de suspenso — como se todos esperassem por algo que não viria. Chovia sem parar, o que tornava tudo mais lento, mais arrastado, mais interior.

Passei o recreio encostado a uma das colunas do pátio coberto, a ver a água escorrer pelos beirais. Havia uma espécie de paz naquela repetição: a chuva cai, o tempo passa, e nós vamos andando, como se não houvesse alternativa. Por momentos, senti que o mundo estava distante, como uma paisagem vista atrás de um vidro.

O regresso a casa foi silencioso, quase automático. Cheguei, jantei, preparei as coisas para o dia seguinte, e o tempo foi escorrendo sem que nada se destacasse. Mas ao sentar-me a escrever, percebi algo: há dias que não servem para grandes histórias, mas servem para afinar o espírito. Hoje senti que o mês se despedia sem drama e sem festa — apenas num murmúrio, como quem fecha uma porta devagar para não incomodar ninguém.

E talvez seja isso que Outubro quis deixar-me: a noção de que o coração, mesmo quando parece calmo, continua atento. E que a vida se faz tanto das grandes emoções como destes silêncios que nos preparam para o que vem a seguir.


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