Um dia lavado de cinzento

Quinta-feira, 30 de Outubro de 1975

Hoje o tempo manteve-se do mesmo modo: cinzento, molhado e sem qualquer promessa de mudança. Acordei com o som da chuva a bater no vidro, como se o dia quisesse repetir exactamente o anterior. Levantei-me sem grande vontade, mas a rotina não espera por ninguém — muito menos por sonhos teimosos ou memórias que insistem em ficar.

A viagem para o Porto foi silenciosa. Desta vez o Benjamim apareceu, mas vinha tão encolhido no casaco que mal trocamos meia dúzia de palavras. O ritmo do trólei, lento e constante, parecia acompanhar o humor geral do dia. Não pensei muito na Dila hoje; talvez porque a memória de ontem ainda estivesse demasiado viva e, de certa forma, demasiado pesada. É curioso como certos pensamentos se prolongam e outros se retraem sozinhos, como se tivessem vontade própria.

No liceu, a tarde seguiu o registo habitual destes dias chuvosos: colegas ensonados, corredores húmidos, professores com discursos que se perdiam no ar frio da sala. Tudo parecia mais abafado do que o costume, sem brilho, sem grandes motivos para sorrir. O recreio foi curto, sem história e quase sem conversa. Era daqueles dias em que toda a gente parece esconder-se dentro de si própria.

À saída, a chuva apertou de novo, e o casaco já não chegava para evitar a sensação de frio. Voltei para casa com o passo apressado, mas sem pressas por dentro — apenas um cansaço manso, daqueles que não se curam com sono, mas com algum silêncio.

Agora, ao escrever estas linhas, dou por mim a notar como o tempo tem influência nas emoções. A Dila hoje não entrou pela porta principal do pensamento, ficou apenas num canto, sossegada, sem fazer barulho. Talvez o coração precise destes intervalos para respirar. Talvez certas memórias precisem de repouso para não perderem a força.

Termino o dia assim: com a chuva lá fora e um vazio leve cá dentro, não triste, apenas… cinzento. E às vezes, ou não, o cinzento também tem a sua poesia.


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