A chuva que desperta o passado

Quarta-feira, 29 de Outubro de 1975

O dia amanheceu com aquela chuva miúda que parece não querer parar, deixando tudo cinzento e sem graça. Não havia nada de especial à espera, apenas mais um dia rotineiro, abafado pelo peso do tempo. A viagem de trólei para o Porto começou logo com uma pequena frustração: o Benjamim não apareceu. Talvez o mau tempo o tenha feito ficar em casa, talvez tivesse outro motivo qualquer — não importa. A ausência dele deixou o lugar ao meu lado vazio, e esse vazio abriu espaço para as memórias que por vezes tento evitar. Mas hoje, especialmente hoje não consegui evitar.

Enquanto o trólei avançava devagar pelas ruas molhadas, dei por mim a recuar no tempo, a deslizar para aqueles dias em que fazia esta mesma viagem na companhia da Dila. Era como se a chuva, batendo nos vidros, me empurrasse de volta para esses instantes de alegria simples.

Lembrei-me especialmente daquele dia em que estávamos a chegar à Corujeira. Passamos por uma oficina com uma placa publicitária onde se lia “António dos” seguido de um desenho de um amortecedor. A Dila, com aquele curiosidade rápida e ingénua que lhe era tão natural, perguntou-me o que estava escrito. Ela respondeu-me que sempre que passava ali ficava na dúvida quanto à placa publicitária. Para ela o que aquilo representava era "António dos Caneta"

O formato do amortecedor enganara-a, transformando o que devia ser mecânica em escrita. Rimo-nos tanto… Aquela gargalhada dela ainda hoje ecoa num canto do meu pensamento, viva, inteira, como se tivesse acontecido ontem.

Foi assim, mergulhado nessas memórias, absorto e enlevado, que atravessei a viagem inteira. A chuva por fora, a Dila por dentro — e eu no meio, preso entre o que foi e o que já não sei se volta a ser.

A tarde, no liceu, correu arrastada. A chuva batia nas janelas como dedos impacientes, e o cinzento entrava pelas salas adentro. Não havia grande entusiasmo, nem conversas animadas nos corredores; apenas professores cansados, colegas ensonados e um ar húmido que parecia colar-se à roupa e ao espírito. Nada se destacou — nem sequer a mínima surpresa que pudesse animar o dia. Apenas monotonia, tão densa quanto o céu lá fora.

Regressei a casa carregado desses pensamentos, ainda envolto naquele nevoeiro de memórias que a Dila sempre me desperta. E ao encerrar o dia, dei por mim a pensar em como o passado, por mais distante que pareça, tem o poder de atravessar o presente num instante, como um raio de luz por entre nuvens pesadas.

Termino o dia assim: consciente de que há lembranças que não se apagam, mesmo quando julgamos ter seguido em frente. E talvez seja essa persistência — suave, mas teimosa — que me diz que certas histórias ainda não fecharam a porta.


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