Pedaços de um passado não esquecido
Terça-feira, 28 de Outubro de 1975
Hoje a manhã começou com um sobressalto. Ao levantar-me, reparei num pequeno papel rasgado no chão, ali mesmo ao pé da secretária. No início nem liguei, pensei que fosse um rascunho qualquer dos muitos que deixo espalhados. Mas quando o apanhei e senti a textura conhecida, veio-me o frio ao peito: era o bilhete da Dila. O único que ela me tinha dado.
Fiquei imóvel durante uns segundos, como se o tempo tivesse encolhido. Depois veio o horror, rápido e certeiro, e comecei a procurar freneticamente os outros pedaços. Vasculhei o chão, a gaveta, o lixo, tudo. Aos poucos fui encontrando fragmentos minúsculos, outros maiores, até conseguir juntar o suficiente para perceber que nada se tinha perdido — apenas se tinha partido. Acabei a colá-los com o maior cuidado, como se estivesse a recuperar um pedaço do passado que não tinha percebido que ainda guardava tão fundo.
O resto do dia arrastou-se num mau humor que nem eu conseguia justificar. Irritava-me com tudo e com nada, como se tivesse uma sombra pendurada no pensamento. E foi só ao fim da tarde que a pergunta me bateu com força: se eu estava tão anestesiado em relação à Dila, tão convencido de que os sentimentos estavam em banho-maria, porque raio me zanguei tanto? Porque senti aquele aperto na garganta quando vi o papel no chão?
A verdade apareceu devagar, como uma maré teimosa: talvez nada estivesse adormecido. Talvez eu quisesse apenas acreditar que estava. O bilhete, rasgado em pedaços, mostrou-me mais do que queria ver. Mostrou-me que a distância que tentei construir era só fachada, e que por trás dela o coração continuava alerta, vulnerável, pronto a incendiar-se ao menor toque do passado.
Termino o dia com essa reflexão pesada e clara: há coisas que não desaparecem só porque queremos. E há sentimentos que sobrevivem mesmo quando tentamos escondê-los. O bilhete está colado, mas eu ainda não.
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