Entre passos repetidos

Segunda-feira, 27 de Outubro de 1975

Hoje o dia voltou ao seu ritmo habitual, como se a semana quisesse recordar-me que a rotina é uma espécie de corrente mansa que nos leva sem esforço. Acordei cedo, segui para o liceu com o Benjamim, e o caminho pareceu mais silencioso do que o costume — talvez porque eu próprio estivesse mais calado, ou porque nada no ar parecia querer anunciar novidades.

As aulas decorreram dentro da normalidade: explicações, apontamentos, olhares distraídos pela janela. A certa altura dei por mim a contar os minutos não porque quisesse fugir dali, mas apenas porque o corpo se habituou a essa cadência. Nos intervalos, os mesmos rostos, as mesmas conversas soltas, e uma sensação de que tudo estava a correr dentro do esperado.

A Dila não surgiu, mas hoje isso não teve o peso dos dias anteriores. Apenas um ligeiro movimento dentro de mim, rápido como um sopro, a lembrar que ela existe, que continua algures por aí — mas sem a força de me desviar do curso do dia.

O fim da tarde trouxe-me de volta a casa, onde nada reclamava a minha atenção e, ainda assim, tudo parecia calmo. Jantei, arrumei os livros para o dia seguinte e deixei o pensamento descansar, quase sem pedir licença.

O dia terminou como começou: simples, manso, sem pressas e sem grandes perguntas. Apenas mais um passo repetido no caminho que, mesmo rotineiro, continua a ser meu.


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