Um dia sem pressas
Domingo, 26 de Outubro de 1975
O domingo acordou sem pressas, com aquela luz lenta que parece adiar tudo. Depois do pequeno-almoço, encontrei-me com o Manel e o Benjamim para um dos nossos passeios de bicicleta. Seguimos pelas ruas de sempre, sem grande entusiasmo, mas também sem aquela nostalgia que às vezes me acompanha. Foi apenas um passeio, simples e directo, como se o corpo avançasse sem perguntar nada ao pensamento.
A tarde trouxe-nos de volta à rotina confortável dos amigos: um jogo de cartas que demorou mais do que devia, a televisão ligada num qualquer programa que servia apenas de ruído, e a música do Benjamim, sempre tão certa, tão dele, a preencher o ar com as mesmas melodias que já conhecemos de cor. Rimos de pequenas coisas, falamos de tudo um pouco, e o tempo avançou sem se dar por ele.
Ao final do dia, sentei-me com o caderno do meu diário à frente, naquela tentativa de perceber o que o dia tinha deixado merecedor de registo. Não havia grandes pensamentos, nem intrusões, nem aquele aperto súbito no peito. Apenas uma calma grande, e uma pincelada quase imperceptível que a Dila deixou — um nome que passou pela mente como um sopro, sem perturbar nada, mas também sem desaparecer por completo.
Fechei o diário com essa tranquilidade rara: um domingo sem história, mas cheio da leveza de existir.
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