A rotina que anestesia
Sábado, 25 de Outubro de 1975
Hoje levantei-me muito cedo, antes mesmo do sol se mostrar, eram seis e meia, para ir para o liceu com o Benjamim. As aulas matinais têm este peso estranho: obrigam a despertar rapidamente, a seguir o ritmo sem questionar, e transformam o corpo num autómato que se move entre salas, corredores e vozes familiares. Cada passo era marcado pela cadência da rotina, e por mais que a mente quisesse procurar a Dila, a presença dela tornava-se agora mais distante, quase abstracta, dissolvida no ritmo constante do dia.
De tarde, sem aulas, sentei-me sozinho no meu quarto e tentei compreender o que sentia. Já não havia aquela ansiedade quase dolorosa de a encontrar; não era que tivesse deixado de pensar nela, mas algo dentro de mim parecia adormecido, anestesiado. As emoções, antes vivas e pulsantes, diminuíam gradualmente, como se estivessem a aprender a esperar, a não se entregar ao vento da expectativa. Olhava para os livros, para os cadernos e para a caligrafia que me aguardava, e sentia uma estranha tranquilidade misturada com um leve desapego: podia existir mundo para além dela, ainda que uma parte de mim continuasse a ter a atenção voltada para cada possibilidade de a ver, cada gesto, cada sorriso que ela pudesse oferecer.
O dia terminou com esta sensação ambígua: a rotina preenchia o tempo, a monotonia acalmava o coração, mas havia uma consciência silenciosa de que a Dila continuava a ser um ponto fixo nas minhas lembranças e nos meus pensamentos. Pela primeira vez senti-me capaz de enfrentar um dia completo sem que cada momento dependesse de um reencontro, mas ao mesmo tempo sabia que, quando ela surgisse novamente, os sentimentos não iriam desaparecer por completo.
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