Hoje o dia é meu...

Domingo, 30 de Novembro de 1975

O dia acordou outra vez de chuva, como se o céu tivesse decidido lavar o mundo inteiro — e, já agora, dar-me a oportunidade de lavar também o que restava dentro de mim. Mas hoje, ao contrário dos últimos dias, a tempestade não me encontrou. O coração estava mais pacificado, solto de remorsos, mais leve do peso das memórias que andavam sempre a puxar-me para trás.

Acordei com uma determinação mansa: hoje o dia é meu.
Sem amarras, sem expectativas, sem aquela eterna necessidade de revisitar o que foi. A linha do horizonte chamava-me, não como promessa, mas como caminho. E eu, pela primeira vez em muito tempo, senti vontade de o seguir.

Decidi não sair de casa. A chuva era o cúmplice perfeito, uma desculpa bonita para me recolher, para me virar para dentro sem me perder. Enrolei-me no cobertor, como quem constrói um casulo provisório, e trouxe comigo um livro — A Morgadinha dos Canaviais.

É um romance que fala de amores que se revelam devagar, de natureza que quase respira como personagem, e de uma verdade simples: às vezes basta uma alma boa para nos lembrar quem somos.

Talvez tenha sido por isso que o escolhi para me embalar este dia. É um livro que ajuda a apaziguar tempestades — externas ou internas.

Deitei-me na cama, a ouvir a chuva bater no parapeito, e deixei-me ir. A leitura tornou-se uma espécie de abrigo, como se cada página me alinhasse por dentro, como quem passa a ferro nas rugas da alma. A casa estava silenciosa, quase suspensa, e eu encaixei-me nesse silêncio como uma peça que finalmente encontra o seu lugar.

Não pensei na Dila.
Não forcei respostas nem procurei perguntas novas.
Simplesmente existi.

Sentia-me, pela primeira vez em semanas, em paz comigo mesmo — uma paz frágil, talvez, mas sincera. E nesse mundo pequeno feito de palavras, cobertores e chuva lá fora, o dia deslizou sem pressa.

Lia, respirava, fechava os olhos, voltava a abrir o livro… e percebia, devagar, que às vezes seguir em frente não é correr — é parar. Parar para que o coração encontre o seu próprio ritmo, sem ruídos de fora, sem ecos de ontem.

Quando a noite caiu, já mal distinguia o que era a história do livro e o que era a história dentro de mim. Estava mole de cansaço bom, o corpo solto, a mente sem lutas.

Assim, desta forma, acabarei por adormecer, enroscado no meu pequeno mundo, sem dramas, sem revoltas, apenas entregue ao sono — como quem, finalmente, deixa o dia pousar no peito.

E o dia termina.
Com leveza.
Com verdade.
E com paz.


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