Um oceano entre dois passos
Sábado, 29 de Novembro de 1975
A manhã abriu-se em chuva — daquelas miudinhas, persistentes, que não fazem barulho mas entram por todo o lado, como se quisessem ensinar ao mundo o significado de insistência. O céu estava cinzento, a cidade húmida, e eu caminhava para as aulas com a sensação de que até o dia tinha desistido de tentar animar-se.
O liceu foi uma monotonia previsível. Professores cansados, colegas meio adormecidos, carteiras frias. O mundo parecia estar a meio gás, como se a própria semana se tivesse esticado de mais. Não me queixei — dias destes são perfeitos para desaparecer sem grande esforço.
No regresso, a chuva apertou e eu corri para a paragem, dobrado sobre mim mesmo, tentando escapar às pingas teimosas. Foi então que a vi outra vez.
A Dila.
Tão próxima… tão próxima que bastava estender um dedo para tocar o silêncio entre nós.
E, ainda assim, havia um oceano. Daqueles vastos, fundos, que separam continentes. Um oceano sem barcos, sem pontes, sem cartas de navegação. Ela estava ali, tão real como a chuva, e eu sentia-me feito de distância.
Não houve olhares prolongados, nem tentativas de aproximação, nem sequer aquele cumprimento neutro que salva rostos do esquecimento. Nada. Apenas duas pessoas que já se reconheceram demasiado e agora fingem que nunca se viram.
As emoções, que ontem tinham disparado como flechas, hoje estavam refreadas. Não porque tenham desaparecido, mas porque chegaram finalmente a um ponto de aceitação — a mais difícil das artes. Aquele momento em que percebemos que, por mais que o coração esperneie, há caminhos que se fecham por si mesmos. E que às vezes deixar ir é o único gesto possível.
Enquanto esperávamos o Trólei, senti uma serenidade estranha a instalar-se em mim. Não era felicidade, nem alívio; era apenas uma espécie de clareza: nada mais há a fazer. O destino — esse animal selvagem que nunca obedecerá ao meu peito — aponta sempre para diante, mesmo quando insiste em passar pelos lugares que doem.
Entramos no Trólei sem nos tocarmos. E, no entanto, senti que dentro de mim algo se deslocou um milímetro, como quem diz: “pronto, está decidido”. O futuro continua desconhecido, claro, mas pela primeira vez não me parece uma ameaça — parece apenas… futuro.
Cheguei a casa encharcado e cansado, mas menos dividido.
Há dias em que o coração, mesmo triste, aprende a seguir caminho. Hoje foi um deles.
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