O futuro não se decide num silêncio…

Sexta-feira, 28 de Novembro de 1975

Saí do Trólei no Bonfim com aquela preguiça habitual das sextas-feiras, a cabeça já a pedir descanso e o corpo a querer apenas sobreviver ao resto do dia. Mas o destino, esse brincalhão teimoso, resolveu meter-se no meu caminho — ou talvez, simplesmente, pôr-me diante daquilo que ando a tentar evitar.

Vi-a.
A Dila.

Não a esperava ali, tão perto, tão real, tão… igual a si mesma. E, no entanto, parecia distante como um planeta. Ela caminhava na direcção oposta e, por uma fracção de segundo, os nossos olhares quase se tocaram. Quase. Mas o “quase” é o verbo preferido do destino quando quer deixar um rapaz de quinze anos em sobressalto.

Assumimos os dois a mesma postura: ignorar.
Nem um aceno, nem um sorriso breve, nem sequer aquele cumprimento frio que serve só para salvar aparências. Nada. Passamos um pelo outro como duas sombras cansadas, como se tivéssemos ensaiado essa coreografia triste durante noites seguidas.

E foi nesse instante — nesse segundo que pareceu uma eternidade absurda — que a pergunta surgiu, afiada como um alfinete: Estava então definido o futuro da nossa relação?
Era assim que terminavam as histórias? Pelo silêncio? Pelo desvio do olhar? Pela desistência disfarçada de indiferença?

Enquanto seguia o meu caminho, senti o coração a contrair-se num impulso quase físico. Não haveria mais nada a fazer? Nada a tentar? Estava então tudo acabado? — a minha cabeça repetia, como um refrão que ninguém pediu mas insiste em tocar.

Passei o resto do dia a ser mortalmente assombrado por essa imagem: nós dois, tão perto e tão longe, transformados em desconhecidos por alguma força que nem sei se é o destino, o orgulho, o medo ou a soma dos três. A verdade é que não dói o encontro — dói o que não aconteceu nele.

As aulas passaram sem me ver. Os colegas falavam e as palavras deles batiam-me nos ouvidos como chuva sem importância. Eu estava algures naquele passeio do Bonfim, parado no momento exacto em que fechei os olhos para não a encarar de frente.

E, no fundo, a dúvida corroía-me com aquela crueldade muda que só a juventude sabe produzir: será que ela também sentiu isto? Ou fui só eu, mais uma vez, a sofrer sozinho músicas que ninguém ouve?

Ao chegar a casa, concluí uma coisa: o futuro não se decide num silêncio… mas às vezes começa a morrer nele.

Hoje, o meu morreu um bocadinho. Ou, quem sabe, aprendeu a sobreviver de outra maneira.

Amanhã… bem, amanhã logo veremos se o silêncio é sentença ou apenas mais uma página que ainda não sei ler.


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