A vida tem de continuar...
Quinta-feira, 27 de Novembro de 1975
Acordei com uma leveza estranha, quase desconfiada — como se o coração, cansado de se remexer em círculos, tivesse finalmente decidido sentar-se um pouco. O país seguia o seu rumo, mais calmo do que nos últimos dias, e eu próprio parecia, pela primeira vez em muito tempo, disposto a tentar acompanhar esse sossego.
Ao caminhar para o liceu, repeti para mim, num tom meio firme, meio suplicante: "Tenho de parar com isto. Não posso continuar a martirizar-me. A vida tem de continuar. Por isso tenho de tentar seguir em frente". As palavras soaram fortes na minha cabeça, como um pequeno discurso público feito apenas para um auditório de um — eu mesmo.
Durante as aulas, esforcei-me para estar presente. O professor falava e, pela primeira vez em dias, consegui ouvi-lo realmente. Não tudo, claro — não sou milagreiro — mas o suficiente para me sentir de volta ao meu próprio corpo. E isso já era uma vitória. Fui tentando, pouco a pouco, puxar as rédeas dos pensamentos que insistiam em desviar-se para os mesmos lugares de sempre. A cada desvio, dizia baixinho: “Hoje não.”
No recreio, deixei-me ficar encostado ao muro, a ver os outros falar, correr, rir. E senti quase inveja daquela leveza deles — mas uma inveja boa, daquelas que não mordem. Era como se estivesse a espiar uma vida que também podia ser minha, se eu deixasse. O passado, ali ao fundo, tentava fazer-se ouvir, mas desta vez reduzi-lhe o volume. Nem sempre preciso de brigar com ele; às vezes basta pô-lo a dormir um pouco.
Ao longo do dia, percebi que abrandar não é desistir. É apenas aceitar que há sentimentos que, quando apertados com força, só doem mais. A paz que encontrei hoje não é definitiva — isso seria pedir demasiado — mas foi real. Um intervalo no tumulto. Um suspiro que não esperava.
No regresso a casa, senti-me quase orgulhoso do esforço. Não foi perfeito, claro está. Ainda houve momentos de torpor, saudades a sussurrar, memórias a puxarem-me para trás. Mas hoje respondi-lhes com suavidade, como quem diz: eu sei, eu sei… mas agora deixa-me viver um bocadinho.
E assim foi o dia: um exercício de pacificação interior, de abrandar sem apagar, de permitir que a vida avance devagar, mas avance.
Talvez amanhã tropece outra vez — mas hoje, tentei seguir em frente. E, por um dia que seja, isso já é bastante.
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