Uma ferida que respira
Quarta-feira, 26 de Novembro de 1975
A manhã chegou com um silêncio quase suspeito, como se o mundo tivesse finalmente decidido pousar as armas — literais e simbólicas — e respirar fundo. Depois da vertigem de ontem, o país parecia um barco que, após enfrentar a tempestade, encontra por fim um pedaço de mar calmo. Os adultos falavam mais baixo, mas já sem aquele tremor na voz. Os rádios continuavam ligados, mas o tom era menos urgente, como quem diz: sobrevivemos a mais uma.
Voltei ao liceu com a estranha sensação de que o chão estava mais estável… mas só por fora. Porque dentro de mim nada tinha serenado. A tempestade mantinha-se, discreta mas viva, como uma brasa teimosa que recusa apagar-se.
Passei o dia a arrastar uma dor que não sei nomear. Não era daquelas dores que fazem gritar — era pior: aquela que se instala devagar, que já cicatrizou por fora, mas por dentro ainda lateja. Uma ferida que sabe que está fechada, mas continua a reclamar atenção, como se dissesse: “não te esqueças de mim, ainda estou aqui”.
As aulas correram normalmente, talvez até demasiado normalmente. O professor de História até arriscou um sorriso, que ontem teria sido impossível. Os colegas falavam do dia 25 como quem conta uma aventura, exagerando pormenores, trocando datas, inventando tanques onde só havia camiões — típica bravura juvenil depois do medo. Eu ouvia, acenava, fingia acompanhar… mas a minha cabeça estava noutro lugar.
Cada pensamento meu escorregava para o mesmo sítio: a incerteza. A indefinição do que sinto, do que quero, do que espero. A sensação de que o coração é uma casa onde ainda ecoam passos antigos. E por mais que tente fechar portas, as memórias — as boas e as que doem — encontram sempre uma fresta por onde entrar.
Durante o intervalo, fiquei a olhar o recreio como quem observa um cenário conhecido depois de um terramoto. Tudo parecia igual… mas eu não. Havia uma tristeza quieta, não daquelas que derrubam, mas daquelas que acompanham. Talvez seja isto crescer: aprender a caminhar com dores que não partem, apenas mudam de lugar.
Ao fim do dia, enquanto regressava a casa, senti o mundo finalmente pacificado — as ruas mais leves, o país mais tranquilo, o futuro menos ameaçador. Só eu continuava com esta ferida silenciosa a acompanhar o meu passo, como uma sombra persistente.
Mas também sei — ou quero acreditar — que há dores que só permanecem porque ainda têm algo a ensinar. E talvez, quem sabe, amanhã a cicatriz doa um pouco menos.
Hoje, pelo menos, deixei-a respirar. E isso já foi suficiente.
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