25 de Novembro. O tumulto dentro e fora
Terça-feira, 25 de Novembro de 1975
O dia amanheceu com o país de nervos à flor da pele. Ainda antes de sair de casa já se murmurava pelas paredes: quartéis cercados, tropas em movimento, comunicados contraditórios, gente a correr às varandas para ouvir melhor o rádio do vizinho. Um país suspenso num fio, tenso como um arco prestes a largar a flecha.
Eu ouvi tudo — claro que ouvi — mas era como se o mundo estivesse a gritar lá fora enquanto dentro de mim alguém sussurrava bem mais alto.
Na escola, poucas aulas se deram. Os professores falavam baixo, como se cada frase pudesse desencadear uma revolução. Os colegas andavam de um lado para o outro num frenesim nervoso, repetindo boatos, exagerando detalhes, falando de tanques como quem fala de monstros ao escurecer. E eu… eu caminhava por dentro, num silêncio que quase fazia eco.
Porque a verdade — a mais crua, a que dói admitir — é que a intentona militar, o recolher obrigatório, as ameaças da rua… nada disso me abalava tanto como aquilo que fervilhava cá dentro. O caos nacional parecia-me quase um recreio quando comparado à inquietação emocional que me roía as entranhas.
Havia em mim um medo antigo, mas hoje mais nítido: o medo de perder sem saber o que é meu, o medo de querer e não ser querido, o medo de que o destino me passe pela mão como água, sem ao menos me deixar sentir-lhe o peso. Era uma revolta íntima, clandestina, mais perigosa do que qualquer soldado mal-posicionado.
Enquanto o país tremia, eu tentava disfarçar o meu próprio terramoto. A cabeça dizia-me para focar nas notícias, nas ordens, no recolher obrigatório que caía sobre nós como uma noite antecipada. Mas o coração… esse desgraçado… debatia-se sem comando.
O mundo podia estar prestes a virar do avesso. Podia cair o governo, levantar-se outro, fechar tudo, abrir tudo, marchar a esquerda, a direita, o centro e o caos. Mas nada, absolutamente nada, chegava perto da desordem emocional em que eu caminhava.
Quando cheguei a casa — mais cedo do que o previsto — senti o peso colectivo no ar. Portas trancadas, janelas semicerradas, adultos com o olhar preso na televisão como se esperassem uma sentença. E eu, no meio disso tudo, só pensava que viver com este vazio incerto no peito era mais difícil do que enfrentar um país em convulsão.
Terminei o dia fechado no quarto, com o mundo lá fora a tentar salvar-se e eu cá dentro a tentar não me perder. Irónico: Portugal respirava em sobressalto… e eu também. Mas por razões que ninguém via. Porque a revolução dentro de um rapaz de quinze anos é sempre a mais perigosa — não por derrubar governos, mas por ameaçar derrubar o próprio coração.
E assim se fez este dia: dois tumultos paralelos, o nacional e o meu. E o meu, confesso, foi o mais difícil de acalmar.
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