Onde a cabeça não chega, o coração sobra

Segunda-feira, 24 de Novembro de 1975

A segunda-feira abriu-se diante de mim como um corredor comprido: frio, comprido e sem janelas. Voltar às aulas depois de um domingo sem história é sempre uma espécie de teste — ver se ainda sei ser aluno quando a cabeça insiste em ser tudo menos isso.

Entrei no liceu com os livros debaixo do braço e uma espécie de nevoeiro dentro do peito. Os professores falavam, apontavam para o quadro, escreviam datas, fórmulas e teorias… e eu, sentado na carteira, ia tomando notas com a mão enquanto a mente se escapava para cantos mais sombrios. Era como tentar segurar água com os dedos.

Havia em mim um cansaço estranho, não físico, mas daqueles que se escondem por detrás dos olhos. Uma vontade muda de saber para onde vou… ou se vou sequer. Sentia-me dividido: metade de mim a tentar ouvir a explicação de Ciências, a outra metade a vaguear por dentro das próprias dúvidas. O passado tentava, como sempre, meter-se onde não era chamado — a memória da Dila, a inocência dos dias em que tudo parecia simples, aquela urgência de sentir alguma coisa. Mas hoje decidi guardar esses ecos num canto mais fechado. O que foi, foi. E se voltar, que seja por vontade do destino, não pela teimosia da saudade.

Entre uma aula e outra, dei por mim encostado ao muro no recreio, a olhar o vazio como quem tenta adivinhar o próprio futuro. E se me estiver a prender a um tempo que já não existe? — pensei. O coração tem esta mania de querer repetir capítulos que já estão escritos. Mas eu, naquele momento, percebi que se continuasse a olhar para trás, nunca mais avançaria nem meio metro.

A tarde passou num arrastar de passos e pensamentos. Cada intervalo era uma oportunidade para me reencontrar; cada aula, um lembrete de que a vida não pára à espera que eu me decida. E talvez seja isso que me assusta: a ideia de que crescer é escolher o que deixamos ficar no passado para que o presente tenha espaço para respirar.

Ao fim do dia, quando fechei os livros e caminhei para casa, senti um alívio pequeno, quase imperceptível, mas real. Não sei o que me espera — e talvez seja melhor assim. O destino constrói-se à força de passos para a frente, não de memórias agarradas às pernas.

Hoje não houve drama, nem encontros, nem desassossegos maiores. Só eu, dividido, a aprender lentamente que o futuro não aparece se eu continuar a viver do que já passou.

E nesse esforço silencioso… o dia cumpriu-se.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »