O intervalo que o dia não preencheu

Sexta-feira, 14 de Novembro de 1975

Sexta-feira chegou sem pressas, como quem não promete nada. Acordei com aquele cansaço que não fere, mas também não consola. As aulas foram uma fila de minutos iguais, todos com o mesmo rosto aborrecido. Ninguém disse nada que valesse a pena guardar. Eu próprio só existi pela metade, ocupando espaço, mas sem presença verdadeira.

No regresso a casa, a chuva fina veio acordar memórias antigas — não por saudade, mas por reflexo. Havia um tempo em que cada pingo me lembrava a Dila. Hoje… hoje lembram-me apenas que estou aqui. Que o dia passa por mim, mesmo sem me ver. E eu sigo, quase sem me queixar.

Ao fim da tarde, sentei-me um pouco a olhar para o vazio. Foi então que me atravessou um pensamento que ainda não sei se compreendo totalmente: talvez eu esteja a mudar. Ou talvez me esteja a proteger de coisas que ainda não consigo enfrentar.

Percebo agora que, depois do último encontro com a Dila, a relação ficou suspensa no ar, sem força para avançar, mas também sem coragem para cair. O silêncio que lhe dedico não é esquecimento — é defesa. É como um náufrago que encontra uma tábua no meio do mar: não sabe se deve nadar ou ficar quieto, mas sabe que, se largar, afunda.

E eu agarro-me ao dia assim: com força, mas sem esperança definida. Vivo o momento porque o momento não exige respostas. O futuro, esse lugar incerto e cheio de sombras, fica para amanhã, ou para quando o coração estiver menos tremido. Talvez eu esteja no limiar de uma mudança emocional. Talvez esteja apenas a cavar um buraco dentro de mim para esconder o que dói. Ou talvez ambos sejam verdade.

O que sei é isto: o presente tem sido o meu colete salva-vidas. E por agora, basta-me que não afunde.

Por fim irei adormecer com a sensação de que o dia passou por mim sem me reparar — mas com a consciência serena de que, às vezes, sobreviver é simplesmente isto: ficar à superfície.


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