O silêncio que me resta
Sábado, 15 de Novembro de 1975
Hoje o dia nasceu sem pressa, quase como se quisesse poupar-me ao sobressalto de ter de sentir seja o que for. Caminhei entre as horas com aquela calma fingida que só os adolescentes exaustos de emoção conseguem manter. E, mesmo assim, a verdade latejava por dentro: há dias em que o coração se encolhe para não tropeçar em memórias que ainda doem.
Não é que ela, a Dila tenha desaparecido — é pior: ficou numa zona indistinta do meu pensamento, a meio caminho entre o que ainda queria e o que já não ouso tocar. Desde aquele último encontro, algo se partiu em silêncio. A relação esmoreceu, sim… mas como é que uma chama se apaga sem ninguém soprar? Às vezes penso que fui eu, noutras que foi ela, e noutras ainda que a vida tem este mau hábito de pôr distância onde antes cabia só esperança.
Hoje dei por mim a fugir do assunto como quem esconde os cacos dentro da gaveta. Não esqueço o nome dela, não digo o que sinto, mas isso não me livra do peso. Talvez esteja a enterrar tudo bem fundo para não me magoar outra vez — um acto de cobardia discreta, destes que ninguém nota mas que deixam marcas. Ou talvez esteja mesmo no limiar de uma mudança emocional, só que ainda não sei em que direcção vou.
Para não pensar muito, agarrei-me ao dia como quem se segura ao corrimão numa escada escorregadia. Observei as coisas simples: o frio que entra pela roupa adentro, a cidade meio cinzenta, o troleicarro que range sempre no mesmo sítio da curva. Tudo o que não exige esforço. Tudo o que não me pergunta por ela.
Apesar de tudo, houve um sopro de bom humor — daqueles curtos, inteligentes, que surgem só para provar que ainda estou vivo. A vida tem destas ironias: quando estamos mais frágeis, oferece-nos pequenos instantes de graça, quase como quem diz “vá lá, continua”.
E eu continuo. Meio desalinhado, meio esperançoso, como quem pressente que ainda há futuro depois do silêncio. Talvez um dia volte a preencher com o nome dela o espaço escuro do meu coração… ou talvez não. Hoje fico só com a leveza possível, e com esta frase que me atravessou o pensamento como um raio discreto:
Às vezes, o impossível está apenas a um passo — o difícil é saber para que lado.
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