A indiferença pode não matar...

Domingo, 16 de Novembro de 1975

Hoje o dia acordou lento, como se suspeitasse da minha disposição. E talvez tenha acertado, porque ainda vinha preso ao que ontem aconteceu. Não foi um acontecimento grandioso, desses que fazem a terra tremer — mas às vezes basta um gesto simples para nos abalar por dentro mais do que qualquer tempestade.

Ontem, quando me dirigia para o liceu, vi a Dila. E ela, ao passar por mim, virou a cara.
Tão rápido. Tão seco. Tão definitivo.

Passei a noite a mastigar isto, e hoje a ferida abriu-se outra vez.

Virar a cara tem sempre significado. Nunca é inocente. Pode ser despeito, arrogância, indiferença… ou coisas piores, dessas que preferimos não dizer para não lhes dar vida. Pode ser asco, pode ser receio, pode ser um adeus discreto disfarçado de gesto neutro. Ou — e esta hipótese dói só de a escrever — pode ser desamor.

E eu, pobre ingénuo, fiquei ali parado entre a rua e o pensamento, sem saber a qual dos sentidos me agarrar. Cada um deles era uma possibilidade, e nenhuma me era amiga.

A verdade é que me magoou. Magoou mais do que eu admiti ontem, mais do que eu queria confessar hoje. Ficou-me no peito aquela sensação amarga de ser evitado… como se, de repente, eu fosse um capítulo que ela já não quer reler. E o pior é o silêncio que fica depois — porque quando não há explicação, há fantasmas. E os fantasmas têm imaginação fértil.

Hoje tentei seguir o dia como se fosse apenas mais um domingo qualquer. Mas cada coisa que fazia tinha um fundo de distração, como se a minha mente estivesse sempre a regressar à mesma imagem: o rosto dela a desviar-se, quase com a precisão de um reflexo treinado.

Talvez tenha sido receio. Talvez tenha sido vergonha. Talvez tenha sido nada. Mas o que dói é não saber qual dessas verdades é a certa… e temer que seja a última.

Ainda assim, tento guardar um restinho de esperança — não daquela esperança tola que vende ilusões, mas a esperança prática, humilde, que acredita que às vezes um gesto é só isso: um gesto. Um momento mau de alguém que também tem medos, dúvidas e impulsos que não controla.

Amanhã será outro dia.
E, se o destino quiser brincar comigo outra vez, talvez nos cruzemos. Talvez ela olhe. Talvez não. Mas eu estarei atento, inteiro, como quem enfrenta a vida de peito aberto — mesmo quando o peito está a latejar.

Porque, no fim de tudo, o que mais custa não é o virar de cara.
É o que esse virar nos obriga a pensar.


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