Cada hora com um suspiro…

Segunda-feira, 17 de Novembro de 1975

A manhã nasceu baça, embaciada como um vidro que alguém respirou de demasiado perto. E eu acordei assim também, meio enevoado, com aquele peso discreto a morar no peito — o mesmo que me tem acompanhado desde o desvio do rosto dela. Não sei se é tristeza, se é orgulho ferido, se é apenas a confirmação de que o coração, quando gosta, fica vulnerável como um fio de cobre exposto à chuva.

Tentei ocupar-me com o trivial: lavar a cara, arrumar uns livros, fingir que não penso no que penso. Mas havia sempre um pensamento rebelde, um soluço interno a lembrar-me do que me anda atravessado desde domingo. Não consigo evitar. A imagem dela a virar a cara repete-se como um velho diapositivo queimado pela luz — sempre o mesmo, sempre a mesma dorzinha fina.

Fui para o dia como quem caminha no mato alto: cauteloso, desconfiado, preparado para tropeçar a qualquer momento. E, no entanto, nada de extraordinário aconteceu. Talvez até tenha sido um dia banal, desses que se esquecem facilmente… não fossem as emoções presas atrás das costelas a marcar cada hora com um suspiro.

Sempre que via alguém ao longe com cabelo comprido, o coração dava um salto antecipado, tolo, como se quisesse adivinhar uma reconciliação invisível. E sempre que afinal não era ela, caía-me um bocadinho desse mesmo coração, como areia que se escapa por entre os dedos.

A verdade é esta: continuo desgostoso, inquieto, com aquela sensação de que algo ficou por esclarecer e talvez nunca venha a sê-lo. E, ao mesmo tempo, há uma pontinha de esperança teimosa que insiste em não morrer — uma chispa que murmura baixinho: “Espera mais um pouco. Pode ter sido apenas um momento infeliz.”

Mas hoje, ao final da tarde, senti o cansaço de quem anda a travar batalhas silenciosas. O corpo estava ali, mas a cabeça não. A cabeça andava em círculos, sempre a rondar o mesmo nome, a mesma dúvida, o mesmo gesto que abriu esta ferida microscópica que dói como se fosse gigante.

Termino o dia sentado no meu quarto, a luz fraca a fazer companhia, e a sensação de que esta inquietação ainda vai durar mais uns dias. Talvez amanhã traga alguma resposta.
Ou talvez apenas mais silêncio.

E eu, nesse silêncio, continuarei a procurá-la — mesmo que seja apenas dentro de mim.


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