As palavras que pediram segredo

Terça-feira, 18 de Novembro de 1975

O dia começou cinzento, e eu acordei com aquela inquietação que já se instalou em mim como um hóspede que não paga renda. Não há maneira de correr com ela; fica por perto, senta-se ao meu lado, lembra-me o que não quero lembrar. E, mesmo assim, hoje houve qualquer coisa diferente no ar — uma espécie de comichão na alma, um sopro inesperado que me obrigou a parar.

A meio da manhã senti um impulso estranho, súbito, como se alguém me puxasse pela manga invisível da consciência: uma vontade de escrever para além do que escrevo aqui. Um chamamento íntimo, secreto, quase proibido. Não sei explicar bem. Era como se o Diário não chegasse, como se as suas páginas fossem demasiado iluminadas para aquilo que me começava a fervilhar por dentro.

Peguei num papel solto e, por um breve instante, quase comecei a confessar o que nunca confessei — desejos que não ouso dizer em voz alta, pensamentos desalinhados, histórias que talvez só existam porque não podem ser lidas. Tive essa urgência: a de registar o que vem da escuridão suave, aquela que não assusta mas também não permite testemunhas.

Não escrevi muito. Escrevi apenas o suficiente para perceber que existe, dentro de mim, um outro António que pede saída. Um António que talvez esteja a nascer do desgosto, ou da inquietação, ou da simples necessidade de encontrar um lugar onde a dor não se sinta observada.

Por momentos, senti que podia escrever o que me arde na pele — o que teria acontecido se tudo tivesse sido diferente; o que eu teria dito se fosse mais corajoso; o que sinto quando o mundo cala tudo o que importa. Essas histórias… não sei se algum dia terão dono. Talvez fiquem guardadas numa pasta secreta da minha vida. Talvez nunca mais as toque. O tempo dirá — e, normalmente, o tempo gosta de decidir sem me perguntar nada.

O resto do dia correu com aquele ritmo compassado, mas sempre com a sensação de que estava a esconder qualquer coisa dentro do bolso. Não era dinheiro, não era um bilhete, não era um segredo alheio. Era o meu próprio coração, envergonhado, a tentar não fazer barulho.

Termino esta quarta-feira com uma certeza pequena mas teimosa: há coisas que só se conseguem escrever quando doem. E esta dor, esta que anda comigo desde que a Dila desviou o olhar para o lado, talvez esteja a abrir espaço para um António que ainda não conheço.

Seja como for, hoje percebi isto: às vezes, a escrita é a única testemunha que não nos vira a cara.


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