O peso que começa a perder peso

Quarta-feira, 19 de Novembro de 1975

Hoje acordei com uma sensação que quase estranhei: leveza. Daquelas pequeninas, humildes, que não fazem alarde mas que se instalam devagarinho, como quem põe uma mão no nosso ombro e diz: “calma, rapaz, já passou o pior.”

A dor do afastamento da Dila — essa que me assombrou dias seguidos — começou a parecer menos cortante. Não desapareceu, claro. Mas já não me morde o pensamento de surpresa. Agora lateja só quando quer, como uma ferida a cicatrizar.

Talvez seja apenas o tempo a fazer o seu trabalho teimoso. Ou talvez seja eu a perceber que não posso viver inclinado para trás, a olhar para o que se perdeu. Hoje dei por mim a fixar-me mais no que tinha diante dos olhos: o frio da manhã a entrar-me pelas mangas, o burburinho dos passageiros no troleicarro, a pressa das pessoas que não sabem que o meu mundo andou a cambalear. Pequenas âncoras do quotidiano.

E, por incrível que pareça, ajudou.

Tentei não seguir atrás dos pensamentos que me derrubam. Quando começavam a insinuar-se, eu mudava de assunto na minha própria cabeça — uma conversa comigo mesmo, meio firme, meio divertida:
“Não, "Tono", hoje não. Hoje estamos ocupados com coisas de vivos.”

Fez-me sorrir. E esse sorriso, ainda que breve, foi uma vitória.

O dia desenrolou-se com naturalidade. Nada de extraordinário, mas também nada que me puxasse de volta para a sombra. E, ao final da tarde, dei por mim a aceitar o que ainda ontem parecia impossível: é tempo de seguir em frente. Não com raiva, não com pressa, não com desamor — apenas com a serenidade de quem percebe que certas histórias não se escrevem todas de uma vez.

A Dila continua a ser um nome que mexe comigo, claro. Mas já não domina todas as frases invisíveis do meu pensamento. Hoje, pela primeira vez desde tudo isto, senti que posso caminhar com o peito menos apertado.

E, quem diria, até tive um lampejo de futuro — pequeno, mas luminoso.
Afinal, a vida insiste. E eu, devagarinho, começo a insistir com ela.


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