Um dia que respirou por mim

Quinta-feira, 20 de Novembro de 1975

Hoje o dia correu manso, como se tivesse sido lavado durante a noite. Acordei sem aquela urgência de vasculhar emoções, sem o aperto que me acompanhou nos últimos tempos. Foi como abrir a janela e perceber que o ar, afinal, ainda sabe entrar devagar e fazer companhia.

Saí de casa para comungar com o mundo. Pelo caminho reparei nos pequenos detalhes que antes me escapavam — o cheiro a pão quente vindo da padaria, o sol pálido a tentar furar a manhã, as conversas soltas das pessoas que não fazem ideia de que eu, durante dias, me senti a tropeçar dentro de mim. Hoje não tropecei. Caminhei.

A dor já não mordeu. Ficou só um eco distante, como o som de um comboio que já passou da estação. Ainda o consigo ouvir, mas já não me assusta nem me arrasta.

Fui para o liceu. Continuei a concentrar-me no dia-a-dia, como combinara comigo próprio. Tive até momentos em que não pensei em nada de especial — o que é, para um coração remexido, quase um luxo. O "Tono" que ontem começou a levantar a cabeça hoje ergueu um bocadinho mais o queixo. Discreto, mas firme.

As aulas pareceram normais, o mundo pareceu normal, e eu… eu quase também. Houve até uma pontinha de humor a piscar-me o olho quando percebi que, pela primeira vez em vários dias, não fui procurar a Dila com o olhar, nem mesmo disfarçadamente. Isto deve querer dizer alguma coisa — e, seja o que for, é uma boa sensação.

Ao fim da tarde, enquanto voltava para casa, senti uma paz pequena, mas verdadeira. Daquelas que não fazem barulho, mas que ocupam espaço.

Hoje percebi que seguir em frente não é esquecer — é apenas mudar de lugar dentro de nós. E acho que, finalmente, estou a mexer-me.

Um dia pacificado.
E, se me for permitido o exagero poético… até o meu coração parece ter respirado melhor.


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