A dor já está a perder força?

Sexta-feira, 21 de Novembro de 1975

Hoje acordei com uma leveza que quase me deixou desconfiado — daquele género de bem-estar que chega devagar, como se não quisesse assustar ninguém. Talvez seja isto sentir-me livre: não por ter esquecido o que doeu, mas por, finalmente, já não viver preso ao peso da lembrança.

De manhã combinei com alguns colegas ir até ao Rainha Santa Isabel, o liceu ali ao lado — sim, o liceu feminino. Um edifício mais novo, mais arejado, quase juvenil quando comparado com o Alexandre Herculano, que cheira sempre a livros antigos e história velha entranhada nas paredes. O Rainha Santa Isabel pareceu-me outra coisa: mais novo, mais leve, cheio de vozes jovens que ecoam pelos corredores com uma energia própria, quase eléctrica.

A ideia não nasceu de travessuras nem intenções tortas. Nada disso. Foi mais um gesto instintivo, uma vontade de provar a mim mesmo que o meu coração não vive enclausurado dentro das paredes onde sempre se habituou a bater. Uma espécie de ensaio de liberdade emocional.

Quando entramos, senti logo o contraste. O ar parecia mais vibrante, marcado pelo vaivém das raparigas, pelos risos súbitos, pelo tropel de passos apressados. Nós, um pequeno grupo de intrusos com ar de exploradores tímidos, caminhávamos sem objectivo claro. E isso soube-me bem. Caminhar sem destino também pode ser uma forma de cura.

Não fui à procura de ninguém. Não levava perguntas nem esperava respostas. Limitei-me a deixar que o ambiente me tocasse — aquela suavidade caótica que só um liceu feminino tem, onde tudo parece acontecer ao mesmo tempo e, paradoxalmente, com uma leveza quase coreografada.

Os meus colegas faziam comentários divertidos, alguns completamente disparatados, e eu ria-me com eles, mas com uma alegria diferente: uma alegria consciente, tranquila, como se tivesse voltado a sentir que pertenço ao mundo, e não apenas às minhas mágoas.

E, no meio de tudo isto, houve um instante em que percebi a verdadeira razão desta incursão: precisava de ver que o meu coração é capaz de se esticar para além da sombra da Dila. Não para a substituir, não para a apagar, mas para recordar a mim mesmo que ainda sou capaz de respirar noutros lugares, entre outras vozes, noutros cenários.

Hoje, ao sair do Rainha Santa Isabel, senti-me mais leve do que entrei. Não ganhei respostas, não perdi dúvidas, mas ganhei uma certeza pequena: o futuro já começou a abrir espaço dentro de mim, mesmo que ainda não saiba o que quer construir ali.

É curioso como, às vezes, basta mudarmos de cenário para percebermos que a dor já está a perder força. Hoje dei esse passo, pequeno mas firme, como quem abre uma porta só para ver o que há do outro lado. E do outro lado havia isto: um dia simples, pacífico, leve.

Se calhar é assim que começa o futuro — por dentro, antes de chegar cá fora.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »