O silêncio que se encosta a mim
Sábado, 22 de Novembro de 1975
O dia nasceu sem pressa, como se tivesse acordado antes de mim e estivesse à minha espera, encostado ao parapeito. Carregava ainda o eco leve do dia anterior — a sensação de liberdade recente, aquela espécie de descompromisso que me fazia acreditar que podia respirar noutros corredores, noutros liceus, noutros rostos. Mas hoje… hoje o ar vinha mais espesso, quase maduro.
Acordei com aquela estranha convicção de que nada de importante aconteceria — e, no entanto, havia em mim um rumor a contrariar essa certeza. Como quando ouvimos uma porta a fechar ao longe e não sabemos quem entrou, nem quem saiu.
Segui o dia devagar, quase a medo, porque às vezes é no silêncio que a vida se prepara para nos virar do avesso. Fui encontrando os colegas, as conversas habituais, as brincadeiras que nos davam a ilusão de que tudo estava no sítio certo. Mas dentro de mim continuava aquela pergunta que fingia não existir: será que a ausência da Dila me pesa ou sou eu que me escondo dentro dela?
Dei comigo, ao fim da tarde, a repetir o exercício dos últimos dias — caminhar sem rumo definido, mas sempre a rondar os lugares onde a memória dela ainda me mexe nas costelas. Não fui vê-la. Não a chamei. Não quis tocar no que ainda latejava. Disse a mim mesmo que estava bem assim, que um rapaz também precisa de ser dono do seu sossego. E no entanto… havia sempre uma sombra dela encostada ao meu ombro esquerdo, como quem diz: não te iludas, eu continuo aqui.
O dia passou nisto: uma conversa comigo mesmo, cheia de atalhos e retornos, cheia daquele receio juvenil de querer demasiado e perder tudo num gesto mal dado. Senti-me de uma lucidez inesperada — talvez a maturidade seja isto: reconhecer o turbilhão e não recuar. Ou recuar só o suficiente para ganhar balanço.
À noite, antes de escrever estas linhas, tive a sensação de que o futuro me piscava o olho. Como quem avisa: “prepara-te, rapaz, que ainda tens muito para sentir”.
Termino o dia com este silêncio que se encosta a mim. Não me aperta, não me fere. Apenas me acompanha — como se soubesse que estou prestes a voltar a tropeçar naquilo que não digo, mas sinto.
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