O olhar que ergueu uma parede

Sábado, 8 de Novembro de 1975

Hoje levantei-me era sete horas. Por volta das sete e um quarto estava com o Benjamim e juntos dirigimo-nos para a paragem do trólei na Adega Azul. O ar da manhã, húmido e meio adormecido, parecia empurrar-nos devagar, como se o mundo tivesse preguiça de começar. Perdemos propositadamente dois tróleis, na esperança de apanhar o mesmo que a Dila, mas como não a vimos, seguimos no terceiro, fingindo naturalidade, como se nada estivesse planeado.

Duas paragens depois, no largo da Covilhã, ela entrou. A Dila. Sentou-se um lugar à minha frente, e nesse gesto tão simples houve qualquer coisa que me percorreu o corpo como um estalido. Não era alegria. Era mais fino, mais tremido.

De súbito, senti um ciúme imediato, quase infantil, ao imaginar alguém a sentar-se ao lado dela, a ocupar o espaço que eu queria que fosse meu. Levantei-me com a desculpa de lhe querer falar — uma desculpa tão transparente que até eu a via — mas ao sentar-me, não encontrei o sorriso do dia anterior. Havia um olhar frio. Uma postura rígida. Uma distância que não esperava.

Fiquei sem palavras durante toda a viagem, como se me tivessem desligado o interruptor. Sentei-me a seu lado, quase sem pensar, a tentar perceber como é que em vinte e quatro horas tudo podia mudar. A sensação morna do reencontro de ontem transformara-se num gelo fino hoje, como se alguém tivesse apagado a chama com um sopro descuidado.

Ao sair do trólei, uma mistura de desconforto e afeto passou por mim — um ressentimento fugaz, uma espécie de nó que se apertava e aliviava ao mesmo tempo. Continuava a gostar dela, claro que sim, mas agora havia ali uma sombra que não sabia interpretar.

Durante o dia, deixei-me levar pelos amigos. O Benjamim falava, contava histórias, tentava arrancar-me risos como quem puxa um carrinho preso nos carris. Eu sorria, para não mostrar demasiado as sombras que me invadiam interiormente. Mas cada vez que o meu pensamento se soltava, lá voltava a imagem da Dila no trólei, o olhar firme, fechado, como se tivesse erguido uma parede que eu não sabia como atravessar. Tudo nela parecia carregado de significado negativo, como se algo me estivesse a escapar — e eu detesto não perceber.

O mundo continuava normal à minha volta: o barulho das vozes, o cheiro de giz no liceu, o vento espalhando papéis pelo pátio. Mas dentro de mim, um suspiro dizia que certos gestos podiam reacender emoções adormecidas… e outros, como os de hoje, podiam apagá-las quase por completo.

À noite, o silêncio em casa obrigou-me a enfrentar aquilo que durante o dia tentei varrer para debaixo do tapete. Sentei-me com o diário aberto, a tentar traduzir o que não conseguia dizer em voz alta: ciúme, afeto, impaciência, e esse retorno frio das emoções que o reencontro tinha despertado.

E no fim, surgiram as perguntas — aquelas que não deixam dormir, as que mordem devagar:

Porque é que a Dila deixara de entrar na paragem onde sempre a esperava?
Porque é que entrou duas paragens adiante, se nunca o fizera antes?
Porque é que ia para o liceu mais tarde?
Seria para me evitar?
Seria para estar longe de mim?

O que é que eu fizera de tão mal para agora estar assim comigo?
Estaria presa à rigidez dos pais?
Se fosse isso… porque não me disse simplesmente para desaparecer?
Porquê este silêncio?
Porquê esta frieza?
Porquê agora?

Fiquei a olhar para a última frase escrita com um nó apertado na garganta, sentindo que às vezes o mundo não responde — apenas se afasta.

Hoje percebi que o silêncio pode ser mais cruel do que qualquer palavra. A distância da Dila não foi apenas física — foi um muro invisível que se ergueu entre nós. E eu, prisioneiro das minhas próprias dúvidas, fiquei a olhar para esse muro sem saber se algum dia o conseguirei atravessar.


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