Quando o silêncio é a resposta
Domingo, 9 de Novembro de 1975
O domingo nasceu como quem herda uma dívida. O que ontem ficou por resolver colou-se aos meus pensamentos e acompanhou-me até ao pequeno-almoço, fazendo o dia começar torto antes mesmo de eu dar o primeiro passo.
Acordei com aquela sensação estranha de que algo mudara — não no mundo, mas em mim. O que acontecera ontem deixara um rasto, uma espécie de sombra que não cobre tudo, mas cai sempre sobre o ombro. Não era uma tristeza declarada, nem uma revolta evidente. Era pior: era uma inquietação muda, dessas que se instalam devagar e só damos por elas quando já estão agarradas ao peito.
Passei a manhã como quem tenta viver normalmente, mas cada acção tinha um atraso, como se eu estivesse meio segundo atrás de mim próprio. O pensamento fugia-me constantemente para os acontecimentos de ontem, para aquele desvio inesperado que ela fizera — e para as consequências que isso dissera sem palavras. Não precisei de repetir nada na cabeça; o corpo lembrava-se por mim. Havia uma espécie de aperto leve na respiração, um incómodo que não doía mas cansava. Até o café parecia mais amargo.
Tentei distrair-me com tarefas simples, mas nada fixava realmente a atenção. Era como se houvesse uma vibração inquieta dentro de mim, um murmúrio que não se calava e que tornava difícil encontrar paz. O meu humor oscilava sem aviso: por momentos parecia tudo normal, e logo a seguir sentia aquela mesma dúvida a puxar-me para baixo, quase como uma corrente invisível.
À tarde saí de casa na esperança de que o ar frio me limpasse os pensamentos. Caminhei devagar, atento ao nada, como quem procura um sinal que sabe que não vai aparecer. O peso do dia anterior não se soltava; acompanhou-me pelas ruas, entrou comigo nos becos, sentou-se ao meu lado quando parei algures num qualquer recôndito. Não era dramático — era persistente. Uma presença silenciosa, mas constante.
O pior não era o que eu sabia, mas o que não sabia. Essa falta de clareza deixava-me desalinhado por dentro, com um humor instável e uma vontade estranha de fugir do próprio domingo. Senti isso várias vezes: a vontade de estar noutro sítio, noutro tempo, onde tudo fosse mais simples, onde ontem não tivesse deixado tanta marca.
À noite, já em casa, percebi que o dia tinha passado sem eu realmente o viver. Passei-o mais por dentro do que por fora, mais nos pensamentos do que nas ruas. E, apesar de estar cansado, não era um cansaço físico — era emocional, desses que só aparecem quando o coração passa demasiado tempo a pensar sem encontrar chão.
Adormeci devagar, com a esperança ténue de que o dia seguinte viesse com menos peso.
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