Um dia sem história sem encontros ou desencontros

Segunda-feira, 10 de Novembro de 1975

A segunda-feira acordou antes de mim, mas não me chamou. Limitou-se a existir, numa espécie de normalidade tão lisa que até o ar parecia escorregar pelas paredes. Levantei-me sem pressa, porque a pressa só faz sentido quando há destino — e hoje o destino era apenas mais um ponto no calendário, igualzinho aos anteriores.

O corpo cumpriu a rotina, mas a alma ficou no corredor, meio encostada ao silêncio, meio a olhar para o vazio como quem espera que o vazio responda. Não respondeu, claro. O vazio raramente conversa, apenas ecoa.

Segui para o liceu como um objecto lançado à linha do tempo: avancei, mas não caminhei; vi coisas, mas não reparei; ouvi sons, mas não escutei. A manhã correu num ritmo tão automático que, se alguém me perguntasse o que fiz, responderia que não fiz — fui feito. Fui levado, empurrado, alinhado. Um peão à deriva no tabuleiro dos dias úteis.

As aulas passaram a correr, mas não por velocidade — por ausência. A ausência tem essa habilidade: atravessa as horas sem deixar pegadas. Parecia que cada minuto era apenas o eco do anterior, repetido com ligeiras variações que não mudavam nada. Não houve inesperado. Não houve esperado. Houve apenas aquilo que não se nota, porque não quer ser notado.

À tarde, o tempo estendeu-se numa corda frouxa. Voltei a casa a sentir-me dividido: o corpo de um lado, a mente do outro, cada um a seguir o seu caminho como dois desconhecidos que partilham a mesma sombra. Passei por sítios que conheço de cor, mas eles hoje pareciam repetidos, como páginas fotocopiadas demais vezes.

Às vezes, a vida não anda — desliza. E hoje deslizou.
Deslizou pelas horas, pelos gestos mecânicos, pelo modo como a luz entrava na janela sem intenção. Até eu me senti uma repetição de mim mesmo, uma versão ligeiramente baça do rapaz que ontem ainda tentava entender o mundo.

No fim da tarde, o cansaço não era cansaço — era só ausência de interesse. Sentei-me à secretária a fingir que escrevia qualquer coisa, mas a caneta limitou-se a seguir linhas soltas, sem destino, como se estivesse a desenhar o dia inteiro: sem enredo, sem curva, sem revelação.

A noite caiu cedo, com aquela suavidade que Novembro tem quando não quer incomodar ninguém. E eu deixei-a entrar. Deixei-a ocupar o silêncio, encher os cantos do quarto, embalar o pensamento num torpor manso.

Por fim irei adormecer com a sensação de que o dia não me viu — e talvez eu também não o tenha visto a ele.


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