Cada passo um eco do anterior

Terça-feira, 11 de Novembro de 1975

A terça-feira acordou parecida com a segunda, mas não igual — como aquelas moedas que parecem iguais até olharmos com atenção e percebermos que uma tem um arranhão novo. Levantei-me a sentir a mesma sonolência de ontem, mas com uma camada fina de resignação por cima, como se já soubesse que o dia viria descalço de acontecimentos.

Saí de casa com a sensação estranha de estar a reencenar uma peça que já tinha representado na véspera. O caminho para o liceu tinha o mesmo ar, as mesmas pedras, o mesmo vento que não decide se quer soprar ou parar. Mas eu não era a mesma personagem — ou talvez fosse, mas em modo repetição.

A tarde correu com aquele ritmo de relógio cansado: tiquetaqueava, sim, mas parecia fazê-lo só por obrigação. As aulas foram mais um alinhamento de cadeiras e palavras que passaram por mim sem me pedir licença. O professor falava, mas o pensamento fugia por entre as frestas das janelas, e eu deixava-o ir. Às vezes é o melhor que posso fazer por mim: não contrariar o que se quer afastar.

Os colegas pareceram-me longe, mesmo estando ao meu lado. Não por falta de gosto, mas porque hoje eu estava mais fundo em mim, como quem se esconde num sótão onde o pó são memórias e os baús estão todos fechados. Não havia inquietação, nem dor, nem entusiasmo — apenas essa espécie de neutralidade que, de tão neutra, quase dói.

Ao regressar a casa, o caminho pareceu-me mais curto e mais longo ao mesmo tempo. Curto porque nada o quebrou; longo porque o silêncio interior torna tudo mais demorado. Cada passo era um eco do anterior, e cada eco parecia perguntar qualquer coisa que eu não queria responder. Talvez fosse cansaço. Talvez fosse apenas esta rotina a empurrar-me para dentro.

Fechei a tarde entre pequenos gestos — abrir um livro que não li, começar uma frase que não terminei, olhar pela janela como quem procura algo que não sabe identificar. O mundo manteve-se imóvel e, de certa forma, eu também. Mas havia um detalhe diferente de ontem: hoje senti-me ligeiramente mais afastado de tudo, como se a distância tivesse crescido um pouco sem eu reparar.

A noite chegou sem cerimónia, derramando-se sobre o dia como tinta escura num copo de água. Senti a fadiga que não vem do corpo, mas do pensamento — aquela que se instala quando os dias se repetem sem entregar uma resposta, uma surpresa, um pequeno incêndio.

E assim terminou esta terça-feira que rodou no mesmo sítio — imóvel em movimento, igual mas não igual, sem desvio, sem milagre, sem sinal.