Uma presença invisível
Quarta-feira, 12 de Novembro de 1975
O dia abriu os olhos lentamente, mas sem me chamar. O céu era um lençol de cinza, estendido sobre as casas, as ruas, o meu quarto, e parecia sussurrar que hoje nada aconteceria, ou que tudo aconteceria num segredo só meu. Levantei-me devagar, sentindo os músculos ainda presos nos sonhos que não lembrava. Cada movimento era uma dança com o silêncio: o pão estalava sob os dentes, o café fumegava na chávena, e eu percebia que a monotonia tinha a sua própria melodia.
À janela, os telhados brilhavam com orvalho, cada gota reflectindo uma luz ténue, como se pequenas lâmpadas estivessem esquecidas nos jardins, esperando que eu as notasse. O vento não fazia mais que sussurrar histórias que não chegavam à voz, mas que eu conseguia ouvir se me fechasse no meu mundo. As sombras alongavam-se, mudando de forma, como se o tempo tivesse preguiça e hesitasse em avançar.
Na escola, o mundo parecia flutuar fora de mim. As palavras dos professores eram ecos, fórmulas e explicações pareciam mapas de lugares que eu não queria visitar. Estava lá e não estava, respirando o ar húmido da sala, sentindo cada som, cada cheiro, cada luz filtrada pelas janelas, absorvendo o ordinário até que se tornasse extraordinário. Cada minuto passava como se eu tivesse todo o tempo do mundo para me perder nele e reaparecer.
O regresso a casa foi uma viagem entre reflexos. Cada charco reflectia o céu cinzento, as lâmpadas tremeluzindo nele como estrelas caídas e esquecidas. Caminhei devagar, sentindo os pés molhados, o frio subindo pelas pernas, e percebi que o mundo inteiro, naquele momento, estava apenas a observar-me. O vento brincava com os meus pensamentos, trazendo ecos de dias passados e a esperança de dias que ainda não existiam. Cada passo era um gesto de resistência ao tempo que corre e não espera.
À noite, no quarto, a lâmpada iluminava o espaço entre as paredes e os livros, entre o que eu via e o que imaginava. Cada frase lida parecia abrir portas invisíveis, revelar espaços que só existiam na minha mente. Sentei-me, quieto, e deixei que a noite me envolvesse, deixando o coração pulsar com um ritmo silencioso, atento a tudo e a nada. Até mesmo um dia sem história tinha a sua própria narrativa, sussurrando que a vida se esconde nas pequenas coisas, nos gestos que passam despercebidos, nas memórias que ninguém mais consegue tocar.
E ali, sozinho, percebi que o silêncio do mundo e o burburinho do meu coração eram, afinal, a mesma coisa: uma promessa de que mesmo nos dias em branco há algo a descobrir, um segredo que só se revela a quem sabe olhar. O dia terminou sem acontecimentos, mas cheio de vida, de sentimentos que se arrastavam como nuvens e deixavam um rasto invisível nos cantos mais secretos do meu ser.
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