Quando o silêncio preenche a mente
Quinta-feira, 13 de Novembro de 1975
O dia abriu-se com um frio húmido que parecia escorrer pelas ruas, insinuando-se entre os muros e as portas fechadas. A luz da manhã mal conseguia penetrar pelas janelas, e mesmo assim, cada raio era suficiente para me lembrar que a vida continuava, silenciosa, fora de mim e dentro de mim ao mesmo tempo. Levantei-me devagar, sentindo o peso das horas adormecidas sobre os ombros, cada movimento envolto numa hesitação quase ritualística.
O pequeno-almoço foi feito em silêncio, o aroma do café e do pão acabado de chegar da padaria preenchendo a cozinha, lembrando-me que mesmo nos dias mais comuns existem pequenos milagres que ninguém nota. Sentado à mesa, o olhar vagueava para a rua, esperando encontrar um vulto familiar, um gesto, uma presença que não vinha, mas cuja falta se sentia de forma tão intensa que parecia preencher o espaço à minha volta.
Na escola, as horas arrastaram-se como nuvens densas sobre a cidade. As palavras dos professores penetravam apenas de passagem; absorvia o som, mas o significado parecia escapar-me, dissolvendo-se na minha atenção parcial. Tudo parecia secundário, enquanto o pensamento insistia em divagar para ela, para o que o que estaria a fazer, para o que não faria, para cada detalhe do seu sorriso que eu imaginava no lugar de qualquer evento real.
O regresso a casa foi lento, cada passo acompanhado pelo ritmo cadenciado da chuva que começava a cair, miúda e constante, sobre os telhados e as ruas. Cada pingo que caía no chão reflectia uma luz ténue, como pequenas jóias efémeras, e eu parava por instantes apenas para observar, sentindo que a cidade respirava em uníssono comigo. O vento frio trazia consigo cheiros de terra molhada, de madeira húmida, e algo de indefinido, talvez memórias de outros dias, talvez presságios de encontros ainda por vir.
À noite, sentado junto à janela, deixei-me envolver pelo murmúrio da chuva e pelo som das luzes minúsculas dos candeeiros da rua na estrada serpenteante da serra reflectidas nos vidros. Cada detalhe do dia, cada momento aparentemente insignificante, parecia ter guardado um segredo só meu. O silêncio preenchia a sala e a mente, e mesmo na solidão, sentia uma presença invisível que me acompanhava — a ideia dela, o eco do seu riso, a suavidade do seu olhar.
Quando fechei os olhos, o dia parecia ter deixado um rasto invisível de emoções, pequenas fagulhas de atenção e desejo, lembrando-me que mesmo nos dias sem acontecimentos extraordinários, a vida pulsa em sinais subtis, em pequenos movimentos do coração, em esperas que ninguém vê, mas que definem tudo.
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