O Sonho e a Confusão do Coração
Domingo, 31 de Agosto de 1975
A manhã arrastou-se lenta, e eu permaneci deitado, envolto em lençóis, entre o calor e o conforto da cama e a inquietação que não sabia nomear. O corpo queria repouso, mas a mente não se aquietava. Pensava na Dila, nas tardes passadas à sua espera, nas conversas, nos sorrisos que pareciam iluminar tudo à minha volta. Cada memória surgia com intensidade exagerada, fazendo-me acreditar que cada gesto dela tinha significados ocultos que eu, de tão jovem, não conseguia decifrar. A simples lembrança de um olhar era suficiente para acelerar o coração, enquanto a razão permanecia confusa, incapaz de entender se aquilo era amor, desejo, amizade, ou apenas uma sensação que as hormonas em ebulição inventavam.
À tarde, o Manel apareceu duas vezes, breves visitas que me tiraram do meu mundo interior, e mesmo assim o silêncio da casa voltou a envolver-me, dando-me espaço para que as emoções se expandissem sem controlo. Sentia uma mistura de alegria e angústia, de esperança e medo, como se cada pequena lembrança da Dila se transfigurasse em algo maior do que eu conseguia suportar. O sonho da noite anterior voltou com força: eu e a Dila casados. A imaginação transportava-me para um futuro que não existia, mas que parecia tão real que quase podia sentir o calor da mão dela na minha. Mas ao tentar pensar racionalmente, percebia que tudo estava deturpado — os gestos, os olhares, as palavras — e que o significado que eu lhes atribuía era muitas vezes uma invenção do meu coração imaturo, impelido pelas mudanças que começavam a surgir dentro de mim.
À noite, quando os meus pais saíram, decidi ficar sozinho, abraçado ao silêncio da casa. Sentei-me junto da janela, contemplando a luz difusa da rua e as sombras que o luar projetava. Pensei que o que sentia não era necessariamente um amor perfeito ou claro, mas uma confusão de sensações, um turbilhão hormonal que me fazia exagerar cada toque de atenção, cada sorriso, cada gesto banal. Aceitei, finalmente, que a intensidade com que me deixava envolver não era sinal de experiência ou maturidade, mas da própria adolescência — do corpo que desperta, da mente que se perde, do coração que ainda não sabe distinguir entre realidade e fantasia.
O dia terminou com uma sensação de quietude resignada. Aceitei que o que sentia era fruto das hormonas, uma força natural que empurra para fora sentimentos e desejos que ainda não compreendo. E mesmo no meio da confusão, senti-me vivo. Um passo de cada vez, pensei eu, porque cedo ou tarde, aprenderei a decifrar este coração imberbe.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »