Um Encontro Fugaz

Sábado, 30 de Agosto de 1975

A manhã passou-se lenta, entregue apenas à leitura. Pouco depois do meio-dia, algo me fez levantar os olhos da página. Lá estavam elas, Dila e a irmã, a caminhar calmamente. Corri porta fora, calcei-me às pressas e fui atrás delas. Só quando cheguei perto é que me viram.

António?  Que surpresa.— a voz da Dila soou surpresa, mas doce.

Sim… foi inesperado… — disse eu, tentando recuperar o fôlego. — Não pensei que te encontraria tão cedo.

Ela sorriu, inclinando a cabeça.
Nem eu esperava ver-te aqui. Estavas a fazer… o quê?

Ler… mas o livro perdeu a graça assim que te vi. — respondi, com um sorriso nervoso.

A irmã dela riu baixinho, e Dila fez um gesto leve para a irmã calar-se, olhando-me de novo.
Então agora vais acompanhar-nos? — perguntou, andando devagar para me incluir no caminho.

Se me deixares… — disse eu, sentindo que cada passo era um esforço para não tropeçar nas palavras.

Ficamos em silêncio por uns metros, observando o mundo à nossa volta. Depois, ela falou:
Sabes, às vezes é bom simplesmente andar sem pressa, sem planos… só andar.

É verdade — respondi, sentindo o coração disparar. — Mas contigo por perto, até a caminhada parece mais longa e mais curta ao mesmo tempo.

Ela sorriu, quase sem perceber o efeito das suas palavras, e acrescentou:
Então vamos fazer deste sábado algo diferente, pelo menos por hoje?

Diferente… como? — perguntei, curioso.

Simples — disse ela, olhando em redor, para os cantos da rua e para o céu. — Apenas caminhar e falar… sem preocupações.

Acompanhei-as até onde pude. Cada gesto dela parecia pequeno, mas carregado de significado: o jeito com que segurava a mão da irmã para impedir que tropeçasse, a forma como desviava o cabelo do rosto, o riso leve que escapava sem esforço. Até a forma como olhou para mim, de soslaio, parecia conter mundos inteiros.

Quando chegou a hora de nos separarmos, senti uma mistura de alegria e ansiedade que só ela conseguia provocar.
Até à próxima, António — disse ela, com um sorriso que me fez correr os últimos metros de regresso a casa, guardando cada instante na memória.

— Espero que seja bem mais cedo… — deixei no ar esperançado.

Mais tarde, sozinho no meu quarto, fechei os olhos e revivi cada detalhe. Cada palavra, cada olhar, parecia uma frase escrita só para mim. E senti que o coração, ainda batendo depressa, guardava um segredo que ninguém podia tocar. Que cada sorriso dela tinha acendido algo dentro de mim que nem o tempo conseguiria apagar. E pensei, com uma certeza silenciosa, que nenhum dia seria completo sem que ela atravessasse a minha tarde, mesmo que por apenas alguns passos. O mundo podia continuar a girar, mas por dentro de mim, ela tinha parado o tempo.


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