O instante que não se deixa fugir
Sexta-feira, 29 de Agosto de 1975
A manhã nasceu quente, baça, como se o ar tivesse acordado mais cedo do que nós. Eu e o Manel fomos procurar a esperança ao mesmo sítio de sempre, naquele recanto onde o tempo parecia fazer-se de propósito lento só para testar a paciência dos tolos apaixonados. Esperamos muito, tanto que já me via a regressar a casa com aquele peso mole no peito… mas qualquer coisa em mim – talvez teimosia, talvez fé – disse para ficar mais um minuto. Só mais um.
E esse minuto foi o milagre do dia.
A Dila surgiu como quem acende uma luz com um gesto simples. Eu quase tropecei no meu próprio espanto. Ela sorriu — primeiro surpresa, depois contente — e ali estivemos, bem perto um do outro, a conversar sobre pequenos nadas que, ao sair da boca dela, pareciam sempre mais importantes. Meia hora que soube a tarde inteira. Meia hora que apagou todas as madrugadas em que pensei que nada disto fazia sentido.
O silêncio da manhã ainda tremia quando eu, feito tolo cheio de lume no peito, avancei sem pensar.
— Pensei que hoje não vinhas… Estive aqui… bem… desde sempre. — Disse eu, num atropelo.
A Dila, a ajeitar o cabelo, com um sorriso fugidio no canto da boca, respondeu:
— Desde sempre? Isso é a que horas?
— Antes do sol acordar. Ou quase… Nem quero fazer contas. Eu só queria ver-te. Parece que, se não te vejo, o dia não corre bem. — Admiti, meio envergonhado, meio orgulhoso por finalmente a ter ali.
Ela baixou os olhos, num recato tão doce que me dava vontade de tocar o céu.
— Tu dizes essas coisas assim… tão facilmente. — murmurou. — Às vezes pareces tu o mais novo.
— Eu? Mais novo? Só se for no coração… — Ri, atrapalhado. — Não consigo esconder o que sinto. Quando te vejo, fico… pronto… fico assim.
— Assim como? — perguntou, levantando o olhar só um instante.
— Fico com vontade de te contar tudo. Até o que devia guardar. E depois… fico sem saber o que fazer às mãos. Ou às palavras. — Confessei, num desarme total.
Ela desviou o olhar, mas não para fugir – era só timidez, aquela timidez bonita de quem sente mais do que sabe dizer.
— Eu gosto de te ouvir… — murmurou. — Mas assusta-me um bocadinho quando és tão directo. Eu não sei falar como tu.
— Não precisas. Basta apareceres. O resto… eu adivinho. — Sorri.
— Pois… mas às vezes parece que adivinhas demais. — Disse, num quase riso.
— Culpa tua. Andas aí a sorrir assim e queres que eu fique calado? — Brinquei.
Ela riu, baixinho, aquele som breve que parecia sempre curto demais.
— És impossível, António.
— Eu sei… — Endireitei-me, atrevido. — Mas se fosse possível… tu notavas-me na mesma?
Ela hesitou, um rubor ascendeu à sua face. Riscou o chão com a ponta do sapato, respirou devagar, e só depois levantou os olhos.
— Notava, sim. — Disse, simples e certa, como quem entrega algo valioso devagar para não partir.
E eu fiquei ali, com a alma toda a fazer força para não explodir. Porque, no fundo, ela via tudo em mim — mesmo aquilo que eu nem sabia estar a mostrar. E, recatada como era, começava a afeiçoar-se a essa minha desorganização luminosa chamada amor.
Depois despedimo-nos com aquela rotina doce que já parecia nossa: um aceno, um olhar que fica um pouco mais do que devia, e a vontade de prolongar o instante a todo o custo.
De tarde deixei-me estar em casa do Manel. Falamos de tudo um pouco, o tempo a escorrer sem grande ruído, só para me devolver a casa já no fim do dia. Mas por dentro… por dentro eu ainda estava na manhã, naquele breve encontro que me salvou o humor, a alma, e mais um bocado do verão.
E assim o dia fechou: com o coração leve, cansado, mas teimosamente esperançado, como quem sabe que o amanhã talvez traga mais. E se não trouxer… bem, haverá sempre mais minutos teimosos onde um milagre se pode esconder.
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