O que não se vê também pesa

Quinta-feira, 28 de Agosto de 1975

A manhã trouxe-me uma inquietação leve, daquelas que chegam sem avisar e se instalam no peito como um pássaro que não sabe se deve levantar voo. Fui à procura da Dila, ou ao menos da irmã — às vezes um sinal basta, um rasto, uma voz ao longe — mas deparei-me apenas com o pai delas. O homem fitou-me de lado, como quem reconhece um rosto que preferia não rever. Engoli em seco e segui caminho, fingindo naturalidade, esse truque pobre de adolescente apaixonado.

A tarde passou-se entre as visitas do Benjamim, duas investidas rápidas, como quem empurra o tempo para ver se ele cede. Falamos pouco, mas bastou para que a ansiedade se mantivesse acordada, a roer-me por dentro.

À noite, lá fomos os dois, eu e ele, para os lados da casa da Dila — que teimosamente insisto em chamar "Dila’s house", como se o nome inglês roubasse ao destino alguma seriedade. Esperamos longamente, com aquela esperança ingénua que não aprende, mesmo depois de tantos desencontros. Por instantes vi-a — um relance fugidio, quase um truque da luz. Tive a impressão de que me olhava, ou talvez fosse apenas o meu coração a inventar consolos para não doer tanto.

Depois deixou de aparecer. A janela ficou escura, o silêncio ganhou lugar, e eu percebi que não adiantava ficar ali a lutar contra a noite. Vim embora devagar, a pensar no absurdo que é amar alguém que raramente se deixa ver e, ainda assim, nos ilumina as horas todas.

Deitei-me com aquela tristeza macia que acompanha os dias falhados. Mas, no meio dela, resistia uma vontade teimosa: talvez amanhã tudo se componha. Talvez o impossível dê um passo na minha direcção. Afinal, quando se tem quinze anos, acredita-se sempre que o amor pode muito — mesmo quando a realidade insiste em provar o contrário.


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